O Dia das Mães está se aproximando (neste ano será no próximo domingo, 10 de maio) e, junto, vemos um novo mega swell começando a se formar no Atlântico Sul.
Pelas previsões atuais, este swell tem tudo para ser o maior do ano até então, sendo capaz de produzir séries com mais de 3 vezes a altura da cabeça nos picos mais expostos (mais detalhes no fim deste texto).
Ainda que o ápice deste swell não vá coincidir exatamente com o Dia das Mães, a proximidade de ambos reforça a lenda do “Swell do Dia das Mães”.
Mas, será que isso é verdade mesmo — ou é só memória seletiva depois de alguns dias históricos?
Resolvemos sair do achismo e olhar para os dados.

Pontão do Leblon no Swell do Dia das Mães de 2011, o maior registrado nos últimos 20 años. Foto: Mariana Taboada.
COMO FIZEMOS A ANÁLISE
Utilizamos dados de reanálise (ERA-5), disponibilizada pela plataforma Copernicus Climate Data Store (CDS), das últimas duas décadas, considerando:
- Altura significativa do swell principal (Hs)
- Período de pico (Tp)
- Direção média do swell principal
Obs: Os dados foram extraídos em um ponto ao largo do litoral carioca, em águas profundas.
Para cada ano entre 2005 e 2025, analisamos:
- O maior valor de Hs dentro de uma janela de ±24 horas do Dia das Mães.
- O período e direção associados a esse pico.
- O comportamento do mar antes desse evento, desde 1º de janeiro até o momento do pico.
O QUE ENCONTRAMOS

- Na maioria dos anos, o swell associado ao Dia das Mães ficou entre:
- 2,1 m e 2,4 m de altura de face*
- Período entre 11 e 12 segundos
(*) A altura da onda aqui é igual à distância vertical entre a crista e o cavado da onda, que é diferente da escala usada pelos surfistas em geral.
- Em 25% dos anos tivemos alguns eventos realmente fortes, com destaque para:
- 2011 — 3,7 m @ 14,8 s
- 2017 — 2,9 m @ 13,9 s
- 2014 / 2023 — ~2,8 m @ ~13,5 s
Esses são os dias que ficam na memória.
ANTES DO DIA DAS MÃES: COMO ESTAVA O MAR?
Entre janeiro e o momento do pico:
- Altura média: ~1,35 a 1,50 m
- Estado geral: mar mais comportado, típico de verão/início de outono
Assim, as ondas no Dia das Mães costumam ser entre 1,5 e 2,5 vezes maiores do que a média do mar nos meses anteriores (janeiro até maio).
ENTÃO… A LENDA É VERDADEIRA?
Não exatamente. O Dia das Mães NÃO é consistentemente quando temos o maior swell do ano, e nem uma garantia de ondas grandes.
Mas, também não é mito... O período do Dia das Mães frequentemente coincide com a primeira entrada de um swell mais energético após um período mais calmo, o que faz todo sentido, já que em abril/maio ocorre um aumento significativo de atividade ciclônica no Atlântico Sul, resultando em maior probabilidade de ondulações de sul mais organizadas e energéticas atingindo a cidade.
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POR QUE PARECE “SEMPRE”?
Porque o surfista não lembra da média.
Ele lembra de dias como em 2011, 2017, 2023... E esses dias realmente foram bons, especialmente em 2011, que foi histórico.
CONCLUSÃO
O Dia das Mães não é garantia de ondas grandes, mas, quase sempre tem onda!
E frequentemente é uma época que marca uma mudança de regime, quando o oceano começa a entregar swells mais consistentes e energéticos depois de meses mais tranquilos.
Em outras palavras... Não é que “sempre tem ressaca”. Mas, é quando a temporada começa a engrenar.

Laje do Sheraton no Swell do Dia das Mães de 2011, o maior registrado nos últimos 20 años. Foto: Mariana Taboada.
E NESTE ANO, O QUE VEM POR AÍ?
Um novo ciclone centrado ao largo do litoral da Argentina deve ganhar força nas próximas horas e formar uma poderosa pista de ventos chegando a mais de 100 km/h atuando sobre a superfície do mar, entre sexta-feira e domingo.
Associado a isso, teremos ondas muito grandes sendo geradas em direção à Argentina, Uruguai e Brasil.

Mapa da grande pista de ventos que irá atuar sobre a superfície do Atlântico Sul neste sábado, responsável pela geração do mega swell que irá atingir o RJ entre segunda e terça-feira (imagem: Windy).
No Rio de Janeiro, este swell deve atingir ápice entre as manhãs de segunda e de terça-feira. Para segunda, os modelos atualmente estão prevendo uma altura significativa em torno de 2.9 metros em águas profundas, com período de pico 15 segundos, e direção sul-sudoeste (~195 graus). Já para terça, temos 3 metros com 14 segundos, e direção sul-sudoeste (~192 graus). Em ambos os dias, temos energia em torno de 3.500 kj.
Isso pode ser capaz de produzir séries consistentes com mais de “3 metros” de altura da escala dos surfistas nos picos mais expostos, ou mais de 4,5 metros de face de onda, como mostra a modelagem de propagação deste swell desde águas profundas até as praias do Rio, utilizando um modelo de ondas de águas rasas, que faz parte do SisBaHiA® - Sistema Base de Hidrodinâmica Ambiental. Maiores detalhes sobre o SisBaHiA® podem ser obtidos diretamente no website http://www.sisbahia.coppe.ufrj.br.

Resultado do modelo de propagação de ondas regulares de águas rasas (SisBaHiA) para o swell previsto para o dia 11/05/2026, às 09:00 h.

Resultado do modelo de propagação de ondas regulares de águas rasas (SisBaHiA) para o swell previsto para o dia 12/05/2026, às 09:00 h.
Caso esta previsão se confirme, os cantos direitos que seguram ondas grandes, como o canto direito de Grumari (destaque) e o Pontão do Leblon, podem ser algumas das melhores opções de surfe da cidade. A laje do Sheraton também é sempre uma opção para os big-riders em dias de ondas grandes de sul, ainda que a modelagem costeira não indique que lá será um ponto de convergência de energia para este swell.
Já nos municípios vizinhos, podemos destacar a Praia de Itacoatiara (Niterói), a Barrinha (Saquarema), e o Pesqueiro, na Praia Grande (Arraial do Cabo).
Em geral, as praias mais expostas verão ondas bem grandes, porém, com condições complicadas: forte corrente litorânea varrendo da direita para a esquerda, muita água se movendo, e maior parte das séries fechando bastante. Uma grande “máquina de lavar”. Melhor procurar bancadas e lajes mais distantes da praia.
Vale observar as condições de tempo. Hoje, os modelos meteorológicos indicam que na segunda teremos ventos variando em torno do quadrante sudoeste, o que deixa o mar mais mexido nos picos mais abertos, favorecendo as praias voltadas para leste/sudeste, com ondas menores. Já na terça a tendência atual é termos ventos mais calmos e favoráveis. A conferir.
Para aqueles que quiserem aproveitar o swell, mas, sem tanta emoção, é melhor procurar os picos mais protegidos, notadamente aqueles voltados para leste/sudeste, como, por exemplo, o posto 6 de Copacabana, e alguns picos dentro da Baía de Guanabara.
Depois disso, quando as ondas diminuírem, poderemos ver novos bancos de areia nas praias mais abertas e voltadas para sul, como Barra da Tijuca, São Conrado, Ipanema/Leblon, em decorrência da grande movimentação de areia provocada por esta ressaca. Novos “parques de diversões” para os surfistas cariocas!
Vale ressaltar que as principais características desse mega swell, como tamanho, direção, e momento de auge, ainda podem mudar nas próximas atualizações dos modelos, uma vez que a sua zona de geração ainda está em desenvolvimento. Fique ligado!
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Boas ondas!