Você já reparou que, mesmo na mesma praia, alguns dias as ondas quebram cheias e suaves, enquanto em outros ficam cavadas e tubulares? Isso não é acaso. Existe uma lógica física por trás da forma como a onda interage com o fundo do mar. Neste texto, explicamos de forma simples como o tipo de fundo e o período do swell determinam o modo de arrebentação — e como esse conhecimento pode te ajudar a entender melhor o mar e a escolher o pico certo para surfar.

Se você já surfou em praias diferentes, provavelmente percebeu que cada lugar tem um estilo de onda. Mas, até em uma mesma praia, tem dias em que as ondas quebram mais cheias e fracas, e outros em que quebram cavadas e fortes.
Por que isso acontece?
A resposta simples é: A maneira como a onda interage com o fundo do mar define o tipo de arrebentação.
E existe um conceito que ajuda a entender melhor essa interação: o Número de Iribarren.
Calma — não precisa decorar fórmula. O importante é entender a lógica.
Como já vimos em outros textos, a propagação da onda começa a ser impactada pelo fundo do mar na medida em que se aproxima da costa. Em águas mais rasas, a onda vai gradativamente perdendo velocidade e ficando mais esbelta (mais alta e curta), até ficar instável e quebrar.
Se o fundo do mar tem uma inclinação suave, a onda tende a desacelerar mais lentamente e a experimentar quase que a mesma velocidade em todo o seu comprimento, quebrando de forma mais suave (“progressiva” ou “cheia”, para os surfistas).
Ao contrário, se o fundo do mar é bem íngreme, a onda tende a desacelerar de forma mais brusca, e a experimentar velocidades substancialmente diferentes ao longo do seu comprimento. A base (ou cava) da onda, em águas mais rasas, fica mais lenta do que a crista, que “mergulha” formando o tubo.
Quanto maior o período do swell, maior será o comprimento da onda e maior será essa diferença de velocidade – ficando mais fácil formar o tubo.
Resumindo: Fundo do mar íngreme + Swell com período alto = Ondas mais cavadas e tubulares.
Número de Iribarren
Todo esse conceito que relaciona o modo de arrebentação com características da onda e do fundo do mar é traduzido pelo Número de Iribarren, ou Parâmetro de Similaridade de Surfe, como proposto por BATJES (1974). Ele relaciona a inclinação do fundo com a inclinação (ou esbeltez) da onda, conforme:

Onde:
- m é a tangente do ângulo de inclinação do fundo do mar,
- Hb é a altura da onda no ponto de arrebentação,
- L0 é o comprimento da onda em águas profundas, que é proporcional ao período da ondulação ao quadrado (L0 = 1,56 T²).
Nota: Pode-se usar o comprimento da onda no ponto de arrebentação (Lb), porém, o seu uso é menos prático devido à grande dificuldade de se medir essa grandeza, por diversos fatores.
Tabela 1: Classificação do modo de arrebentação em função do Número de Iribarren, segundo BATJES (1974). Denominação entre parênteses é aquela praticada pelos surfistas.


Exemplo de arrebentação progressiva (“cheia ou gorda”).

Exemplo de arrebentação mergulhante (“cavada ou tubular”).

Exemplo de arrebentação colapsante.
Análise de sensibilidade: Período do swell
Vamos considerar uma praia arenosa intermediária, com talude 1:25*, e ondas com altura de arrebentação igual a 2,0 m (quebrando pouco acima da cabeça), e vamos calcular o Número de Iribarren para diferentes períodos de swell, variando de 8s (período curto) até 16s (período longo).
Talude 1:25 significa que a cada 25 metros de distância horizontal, o fundo varia 1 metro verticalmente (o mar fica um metro mais raso).
| Período (s) | Número de Iribarren | Modo de arrebentação |
|---|---|---|
| 8 | 0,28 | Cheia |
| 10 | 0,35 | Cheia |
| 12 | 0,42 | Cavada |
| 14 | 0,49 | Cavada |
| 16 | 0,57 | Cavada |
Ou seja, para um mesmo fundo de mar (1:25) e um mesmo tamanho de onda (2m), o tipo de arrebentação pode variar de “cheia” para “cavada” dependendo do período. Neste caso, ondulações de período curto quebram mais cheias, enquanto ondulações de período longo quebram mais cavadas. Já as ondulações de período médio quebram perto do limite entre “cheia” e “cavada”.
Análise de sensibilidade: Talude do fundo
Agora vamos considerar uma onda com altura de arrebentação igual a 2,0 m (quebrando pouco acima da cabeça), proveniente de um swell com período médio (12s), e vamos calcular o Número de Iribarren para diferentes taludes de fundo, desde 1:5 (praia muito íngreme) até 1:50 (praia muito suave).
| Talude | Número de Iribarren | Modo de Arrebentação |
|---|---|---|
| 1:50 | 0,21 | Cheia |
| 1:25 | 0,42 | Cavada |
| 1:15 | 0,71 | Cavada |
| 1:10 | 1,06 | Cavada |
| 1:5 | 2,12 | Colapsante |
Ou seja, uma mesma onda pode quebrar de diferentes formas em função da inclinação do fundo do mar. Neste exemplo, a onda poderá quebrar bem cheia em uma praia com fundo suave (1:50), tubular em diferentes níveis com fundos intermediários (1:25 a 1:10), e até colapsante com um fundo bem íngreme (1:5). Isso mostra que a sensibilidade do modo de arrebentação ao ângulo de inclinação do fundo é ainda maior do que à inclinação (ou esbeltez) da onda.
Aplicações
Que diferença esse conhecimento pode trazer ao meu dia a dia no surf?
Saber o tipo de onda esperar em função da previsão de ondas pode ser útil no seu planejamento, tanto na prancha que você vai usar, como no pico que vai escolher.
Por exemplo, se a previsão indica um swell com período mais alto, você deve considerar usar uma prancha mais apropriada para uma onda mais cavada. Ou então, você pode aproveitar para ir surfar em um pico que normalmente não vai porque as ondas costumam ser muito cheias.
E isso pode evitar você ir para o lugar errado e/ou carregar a prancha errada.
Cabe observar que o uso do Número de Iribarren requer algumas ressalvas, pois o mesmo não considera o efeito de correntes (longitudinais e transversais), maré, vento, mar irregular (combinação de swells), e de outros fatores dinâmicos relevantes no processo de arrebentação.
Assim, ele é melhor entendido como um indicador físico simplificado, mais adequado para interpretações gerais e análises preliminares (primeiro diagnóstico), do que para descrição detalhada de ambientes costeiros reais.
Nos próximos textos
Vamos falar sobre como processos como:
• Refração
• Empinamento (shoaling)
• Difração
• Correntes
Transformam o swell ao se aproximar da praia – e como isso impacta o surf real.