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História do skateboarding: o irmão terrestre do surf

Bruno Aguilar
Lectura: 8 minutos

Neste artigo vamos relembrar a história do skateboarding, um esporte apaixonante, ligado ao surf desde o seu nascimento. A recente inauguração da nossa câmera ao vivo no skatepark de Los Dedos, em Punta del Este, foi a desculpa perfeita para contar essa história. Vamos conhecer desde suas origens nas ruas da Califórnia até sua chegada aos Jogos Olímpicos. Vamos percorrer os momentos-chave, as ideias que o fizeram avançar e como foi evoluindo ao longo do tempo.

skateboarding
O lendário skater Tony Alva andando de skate em uma piscina em 1978.

Nascimento do skate

O skateboarding nasceu na Califórnia na década de 1950, como uma extensão natural do surf. Nos dias sem ondas, os surfistas buscavam uma maneira de manter a sensação de deslizar, e assim surgiu a ideia de adaptar rodas de patins a tábuas de madeira.

Essa necessidade de levar o mar para a terra deu origem ao sidewalk surfing, ou “surf de calçada”: uma forma de replicar as manobras do surf no asfalto.


Sidewalk Surfer em Venice Beach, 1975.

Assim como o surf, os inícios do skate foram marcados pelo “Do It Yourself”. Cada um precisava fabricar o seu próprio skate, desmontando patins e fixando suas rodas em uma tábua. Era algo totalmente artesanal, mas rapidamente ganhou popularidade.

O primeiro skate colocado à venda

A demanda foi crescendo, e nesse contexto, surgiu o primeiro skateboard no mercado. Foi lançado pela marca Roller Derby, já muito popular pelos seus patins, ou “skates”. Suas pranchas eram simples —um pedaço de madeira reto com rodas de aço—, sem nenhum tipo de aderência para os pés. Apesar do design rudimentar, foram um sucesso de vendas.


O primer skate que saiu à venda na história.

Com o entusiasmo inicial por esse novo brinquedo, também chegaram os acidentes. As rodas metálicas eram muito instáveis e escorregadias, o que provocava muitas quedas. Isso deu ao skate a reputação de esporte perigoso e, já desde os começos, foi visto com desconfiança pela sociedade.


Publicidade das sidewalk surfboards da Roller Derby.


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Início dos anos sessenta: primeiros skateparks e campeonatos

À medida que o sidewalk surfing ganhava adeptos, começou a ser chamado de skateboarding, unindo as palavras skate (patins) e board (tábua). Paralelamente, realizavam-se os primeiros campeonatos.

O primeiro campeonato de skate aconteceu em Hermosa Beach em 1963. O vencedor foi Larry Stevenson, figura-chave para a evolução do esporte. Ele introduziu uma inovação fundamental: o tail inclinado, que permitiu desenvolver novas manobras e expandiu os limites do possível sobre uma prancha.


Larry Stevenson, criador do kicktail.

O esporte seguiu crescendo e logo surgiram as primeiras pistas de skate. Em 1965, o primeiro skatepark abriu as portas. Chamava-se Surf City e ficava em Tucson, Arizona. Na época, as pistas eram privadas, e os acidentes eram frequentes e caros. Processos judiciais obrigaram muitos desses lugares a fechar.


Anúncio da inauguração da primeira pista de skate.

O skateboarding terminou os anos 60 abalado e demonizado. Muitas marcas e pistas fecharam, e setores da sociedade seguiam lutando para proibir esse esporte tão perigoso para as crianças.


O skateboarding foi proibido em muitos lugares.

A roda de poliuretano, o invento que mudaria tudo

Em 1972 chegou um avanço que transformou por completo o skate: as rodas de poliuretano. O responsável foi Frank Nasworthy, surfista e engenheiro químico, que adaptou esse material às rodas.


Frank Nasworthy e sua criação: a primeira roda de poliuretano.

Isso trouxe mais aderência e controle, permitindo realizar manobras com muito mais velocidade e risco, além de proporcionar mais segurança para os iniciantes. A mudança foi tão significativa que impulsionou o surgimento de novas disciplinas como freestyle, vert e downhill.

Essa inovação marcou o início do skate moderno e abriu a porta para uma evolução técnica sem precedentes.

Década de 70, os Z-Boys e o skate em piscinas

Um fato fundamental para o desenvolvimento do skateboarding foi uma grande seca na Califórnia. Esse fenômeno acontecia todos os anos, mas o verão de 1975, em particular, foi duríssimo.

Com as restrições de água, muitas famílias tiveram de esvaziar as piscinas de suas casas. A particularidade do design dessas piscinas eram os fundos arredondados, para não racharem quando a água congelava no inverno. E foi aí que os skaters viram uma nova oportunidade: esses bowls vazios eram perfeitos para andar.


Jay Adams mostrando estilo clássico e radical.

Em meados dos anos 70 apareceu o grupo dos Z-Boys, uma equipe de skaters e surfistas patrocinados pela loja Zephyr, vindos de um bairro de Venice Beach chamado Dogtown.

Esses jovens foram referência da geração que empurrou os limites do esporte durante a década de 1970. Foram pioneiros no skate de piscinas, desenvolvendo manobras aéreas em bowl, que até hoje seguem sendo a base do skate moderno.


Stacy Peralta, outro skater de destaque da época.

Entre seus integrantes destacaram-se lendas como Jay Adams, Stacy Peralta e Tony Alva.

Na mesma época, outro skater importante foi Alan "Ollie" Gelfand, que revolucionou o esporte ao criar o ollie, uma manobra que consistia em se desprender do bowl sem usar as mãos.


Adam "Ollie" Gelfand executando sua manobra.

Anos oitenta: criando uma identidade própria

Nos anos 80, o skate começou a se desligar definitivamente do surf e a construir sua própria cultura. Ligou-se à cultura de rua, ao hardcore, ao punk e, no final da década, também ao hip hop. Finalmente, transformou-se em um símbolo de rebeldia.


Skater na rua. Década de 80.

Na época, com poucos skateparks disponíveis, começou a crescer a cultura DIY (Do It Yourself), baseada em construir rampas e obstáculos caseiros, seja na rua ou no quintal.

Em 1982, Rodney Mullen inventou o ollie no chão, o que disparou uma nova onda de criatividade. A partir daí, Mullen criou manobras como kickflip, heelflip, 360 flip, impossible, entre muitas outras. Foi o grande inovador da década e dominava os campeonatos com truques que ninguém conseguia reproduzir.

A modalidade street começou a ganhar espaço. Usar escadas, corrimãos, bancos e calçadas como obstáculos virou algo comum. O skate continuava sendo malvisto, até mais que antes: andar na cidade era considerado vandalismo e destruição do mobiliário público. Muitos ainda não reconheciam o skateboarding como esporte.

De Volta para o Futuro

Falando de skate nos anos 80, não podemos deixar de mencionar De Volta para o Futuro, um filme que marcou época. O protagonista Marty McFly andava de skate, e quando viajava para o futuro usava um hoverboard, uma prancha flutuante inspirada no skate.

Seu enorme sucesso popularizou ainda mais o esporte e aproximou muitas crianças do skate pela primeira vez. Foi um grande impulso rumo ao reconhecimento massivo.


Marty McFly com o hoverboard.

O salto para o mainstream nos anos noventa

Durante os anos 90, o skate começou a se profissionalizar. As pranchas ficaram mais leves, as manobras mais técnicas e surgiu uma geração de atletas de alto nível.

Em 1994, a ESPN lançou os X Games, competição de esportes radicais que incluiu o skate desde o começo. Isso marcou sua entrada definitiva no mainstream. Já não era apenas rebeldia de rua: era espetáculo televisivo.

Tony Hawk foi um dos nomes-chave. Venceu os X Games em 1995, mas foi em 1999 que entrou para a história ao completar o 900: duas voltas e meia no ar. Foi o primeiro a conseguir e isso o levou à fama mundial.

No mesmo ano, lançou junto com a Activision o videogame Tony Hawk’s Pro Skater. Foi um sucesso estrondoso, com várias edições e milhões de cópias vendidas. O jogo ajudou enormemente a popularizar o skate em todo o mundo.

Anos 2000: o começo do skate moderno como conhecemos hoje

A partir do novo milênio, o skate consolidou sua presença global. Tornou-se um esporte com atletas profissionais, competições internacionais e uma indústria desenvolvida. A comunidade skater continuou crescendo no mundo todo, fiel ao seu espírito original de liberdade e criatividade.

O skate chega aos Jogos Olímpicos

O skateboarding foi incluído oficialmente como esporte olímpico nos Jogos de Tóquio 2020 (realizados em 2021), competindo em duas modalidades: street e park. Foi um momento histórico, representando o reconhecimento institucional de uma disciplina que sempre foi contracultural e urbana. Nos Jogos de Paris 2024 reafirmou seu lugar como disciplina olímpica.

Entre os protagonistas mais destacados estiveram Yuto Horigome, do Japão, medalha de ouro no street nas duas edições. Também brilharam Momiji Nishiya, também japonesa, que ganhou medalha com apenas 13 anos em 2021, e a brasileira Rayssa Leal, que com a mesma idade tornou-se uma figura mundial do skate.


O pódio do street feminino em Paris 2024. Coco Yoshizawa, Liz Akama e Rayssa Leal.

A inclusão olímpica impulsionou a visibilidade do skate na mídia tradicional, despertou o interesse de marcas mainstream e gerou maior apoio institucional em países como Brasil, Japão e Estados Unidos.

No entanto, também abriu debates internos entre os skaters, alguns dos quais viram essa profissionalização como uma possível traição à essência de rua e livre do esporte.

Conclusão

Hoje o skate segue evoluindo, entre ruas, parques, rampas caseiras e competições internacionais. Desde suas origens ligadas ao surf até sua chegada aos Jogos Olímpicos, passou por muitas etapas, mas sempre manteve aquela mistura de criatividade, risco e liberdade que o caracteriza.