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Quem teve a ideia de passar parafina na prancha?

Bruno Aguilar
Lectura: 4 minutos

Hoje, nenhum surfista entra no mar sem aplicar parafina na prancha. É um gesto automático. Mas poucos conhecem como isso surgiu. Antes da parafina, os surfistas improvisavam sobre pranchas de madeira escorregadias — muitas vezes com soluções dolorosas. Esta é a história de como um jovem californiano teve a ideia de usar parafina genérica em sua prancha, transformando para sempre a relação entre o surfista e o equipamento.

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Parafinas no Museu do Surfe da Califórnia.

O contexto: os primórdios do surf no Ocidente

A primeira aplicação de parafina na prancha aconteceu em 1935, na Califórnia, quando o surf ocidental ainda estava engatinhando. Surfistas havaianos como George Freeth e Duke Kahanamoku haviam introduzido o surf na Califórnia no final do século XIX. Naquela época não havia indústria especializada: cada um fabricava sua própria prancha, geralmente de madeira pesada e com deck liso, sem grip próprio.


Al Gallant surfando em San Onofre, 1938.

O problema da tração

Surfar nessas pranchas lisas era um desafio: muitos passaram a aplicar verniz com areia para melhorar a aderência, mas isso acabava machucando os joelhos, peito, pés e coxas, especialmente ao remar ajoelhado ou durante manobras.


Assim era uma prancha no início dos anos trinta.

A descoberta de Al Gallant

Foi nesse cenário que Alfred “Al” Gallant Jr., um jovem surfista californiano, teve uma ideia que mudaria tudo. Em 1935, após surfar em Palos Verdes Cove, ele notou que ao caminhar descalço pelo piso encerado de sua casa, seus pés aderiam ligeiramente. No dia seguinte, levou o frasco de parafina ao pico e passou na prancha. Em uma carta enviada à Longboard Magazine em 1999, Al disse:

“Quando surfei, meus pés praticamente grudavam na prancha. Funcionou perfeitamente.”

Ao chegar em casa, sua mãe ficou furiosa por perceber que a parafina havia sumido do piso — mas, ao entender o uso, recomendou que ele usasse a parafina sólida usada para selar potes de geleia. No dia seguinte, ele e os amigos aplicaram a nova parafina nas pranchas, substituindo as misturas abrasivas de areia e verniz.

Assim, além de garantir aderência, a parafina eliminou os ferimentos causados por superfícies ásperas.

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A parafina daquela época era genérica e tinha vários usos domésticos.

A disseminação do invento

Al surfava ao lado de figuras lendárias como John “Doc” Ball, LeRoy Grannis, Fenton Scholes e Bud Morrissey, em picos como Malibu, Santa Monica, Hermosa Beach, Redondo Beach, Newport e San Onofre. As pranchas pesavam cerca de 60 kg, e a parafina transformou a experiência de surf. Mesmo com a eficácia da descoberta, levaram quase 30 anos até que alguém produzisse e vendesse parafina específica para surf.


Doc Ball surfando em Palos Verdes Cove. A foto é de Tom Blake, inventor do primeiro protótipo de quilha e leash.

Da ideia ao produto: o salto comercial

Em 1963, a empresa californiana Surf Research lançou o primeiro produto chamado simplesmente “Surf Wax”, pensado exclusivamente para surfistas. No decorrer das décadas de 1970, marcas como Sticky Bumps, Sex Wax e Fu Wax começaram a dominar o mercado. Nos anos 80 e 90, as principais fabricantes produziam mais de um milhão de blocos de parafina por ano, com fórmulas cada vez mais sofisticadas, incluindo versões específicas para diferentes temperaturas da água: tropical, fria e morna.

A vida de Al após a descoberta

Pouco depois do invento, em 1940, Al entrou na Marinha dos EUA e estava a bordo do USS Pennsylvania, em Pearl Harbor, durante o ataque japonês de 7 de dezembro de 1941. Manteve a carreira naval, mas nunca abandonou o surf. Transmitiu sua paixão pelo oceano à família e, anos depois, mudou-se para Oahu, no Havaí, onde viveu até falecer em 1999.

“Al” Gallant na Marinha.