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Quiksilver: a história por trás do logotipo mais famoso do surf

Bruno Aguilar
Lectura: 8 minutos

Pode-se dizer que a Quiksilver é a marca mais icônica no mundo do surfe. Se você é amante de esportes radicais, certamente tem ou já teve pelo menos uma peça com a Montanha e a Onda guardada no armário. Neste artigo, exploraremos a história da Quiksilver, desde seus humildes começos em Torquay até se tornar um dos gigantes da indústria do surfe.

Em pleno auge da contracultura e quando tudo estava por inventar na indústria do surfe, um jovem australiano de 22 anos chamado Alan Green costurou o primeiro par de shorts projetados especificamente para surfar. Assim nasceu a Quiksilver.

Naquele momento ele não sabia, mas esse par de shorts se tornaria algo que moldaria a cultura do surfe, conquistaria títulos mundiais, criaria estilos que definiriam gerações e inspiraria milhões de pessoas a construir uma vida em torno das ondas e dos bons momentos.

Os começos

A Quiksilver nasceu em 1969 em Torquay, Austrália, pelas mãos de Alan Green e John Law. Green, junto com seus amigos e futuros cofundadores da Rip Curl, Brian Singer e Doug “Claw” Warbrick, fundaram uma pequena marca de fabricação de wetsuits no porão de uma casa na Beale Street, atrás do Torquay Pub. Green eventualmente se separaria da dupla para se concentrar nos boardshorts. Essa decisão marcaria o início de uma jornada que levaria à criação da Quiksilver, uma marca que se tornaria sinônimo da cultura do surfe no mundo todo.


Um jovem Alan Green, a alma da Quiksilver.

A esposa de Green, Barbara, desempenhou papel fundamental na escolha do nome da empresa, inspirando-se na palavra “quicksilver” de um romance, que evocava qualidades como fluidez, elusividade e mudança — atributos que Green associava ao surfe. Com uma onda quebrando e uma montanha nevada como logotipo, a Quiksilver capturou o espírito de aventura tanto na neve quanto no mar.

O primeiro produto foi um boardshort de secagem rápida com fechos de velcro, algo totalmente inovador para a época, quando a maioria dos produtos era desconfortável ou pouco funcional para a água. Green e Law testavam suas bermudas de banho diante dos olhares atônitos de outros surfistas, que viam que aquilo funcionava. A Quiksilver começava a se fazer um nome na região.

Cruzando fronteiras

Durante os anos 70, a Quiksilver cruzou fronteiras e chegou aos Estados Unidos, onde encontrou um mercado ideal. A marca logo se posicionou como referência em roupas de surfe e seu logotipo se tornou um ícone dentro e fora da água.

Jeff Hackman, um dos melhores surfistas da época, acreditou ver nesses shorts o futuro do surfe. Em 1976, Hackman saiu de Torquay com o troféu de Bells Beach debaixo do braço e pronto para introduzir e distribuir a Quiksilver no mercado norte-americano.


Evolução do logo da Quiksilver ao longo dos anos.

Jeff viajou até o Havaí para se reunir com Bob “Buzz” McKnight, um velho amigo da faculdade que filmava cenas de surfe. No Havaí, o novo shorts também fez sucesso entre os habitantes da ilha paradisíaca.

Jeff convenceu Green e Law a vender a licença americana da Quiksilver para ele e Bob. Em meados dos anos 70, já existia um centro de distribuição da marca em Newport Beach, Califórnia. Em 1984 foi fundada a Quiksilver Europa, seguindo as fórmulas de marketing já bem-sucedidas praticadas na América e na Austrália.


Anúncio dos anos setenta.

A consolidação da Quiksilver como um império do surfe

Nas décadas de 80 e 90, a Quiksilver viveu uma fase de expansão global. Consolidou-se na Europa, América do Sul e Ásia, e começou a diversificar sua linha de produtos, incluindo wetsuits, vestuário urbano, acessórios e equipamentos técnicos.

Foi também uma época chave na sua relação com o surfe competitivo. Em meados dos anos 80, a Quiksilver comprou os direitos de usar o nome Eddie Aikau e assim começou a história do evento de surfe mais prestigiado: o Quiksilver in Memory of Eddie Aikau Big Wave Invitational, mais conhecido como “The Eddie”. Realizado em Waimea Bay, só aconteceu onze vezes desde sua primeira edição em 1985, pois exige ondas gigantes, com no mínimo 20 pés de altura.


Tom Carroll, estrela do surfe nos anos 80 e embaixador da Quiksilver até hoje.

Em 1989 patrocinaram o lendário surfista australiano Tom Carroll, que vinha de dois títulos mundiais consecutivos em 1983 e 1984, além de ter vencido o Pipe Masters em 1987, 1990 e 1991. Esse contrato o tornou o primeiro surfista milionário.

Em 1990, contrataram a grande estrela em ascensão do surfe: Kelly Slater, que se juntou ao time com apenas 16 anos, com um contrato polpudo e uma carreira brilhante pela frente. Dois anos depois ele conquistaria o primeiro de seus onze títulos mundiais. Na década de 90, Slater encadeou cinco títulos mundiais seguidos (1994–1998), levando a Quiksilver ao topo do surfe competitivo.


Clássica foto de Kelly Slater exibindo o logotipo da Quiksilver na ponta de sua prancha.


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Lançamento da Roxy: a marca pensada para mulheres surfistas

Inspirado no nome da segunda filha de Alan Green, a Quiksilver lançou a Roxy em 1990. Foi considerada uma jogada ousada, já que o surfe feminino ainda não tinha a visibilidade do surfe masculino e o mercado não era tão estável. Inicialmente concebida como uma coleção de biquínis, a linha foi lançada no fim daquele verão e foi um sucesso imediato.

Para 1991, a Roxy já havia ampliado sua oferta com uma linha de roupas esportivas femininas que ultrapassou rapidamente um milhão de dólares em vendas, demonstrando que havia um mercado crescente e apaixonado pelas peças pensadas especificamente para mulheres surfistas.

O ponto de inflexão para a Roxy ocorreu em 1993, quando adotou seu icônico logotipo com duas ondas em forma de coração, inspirado no emblema da Quiksilver mas adaptado para refletir o espírito livre das mulheres na água.

No mesmo ano, enquanto a equipe criativa da Roxy estava em uma praia no Havaí, surgiu a ideia do primeiro short feminino para surfe, combinando ajuste, flexibilidade e estilo. Foi uma inovação que redefiniu a roupa de surfe feminina e consolidou a Roxy como marca pioneira em sua categoria.

Em 1994, a Roxy alcançou outro marco importante ao contratar Lisa Andersen, campeã mundial feminina da ASP na época. Andersen tornou-se a face visível da marca, conquistou mais três títulos mundiais e catapultou a Roxy ao estrelato global.


Lisa Andersen, lenda do surfe e ícone da Roxy.

Campanhas publicitárias lendárias

A Quiksilver lançou algumas campanhas que se tornaram ícones da cultura do surfe:

If You Can’t Rock n’ Roll, Don’t F*en Come

Essa campanha dos anos 70 foi uma reação à percepção de que a Quiksilver estava se tornando muito mainstream. A icônica imagem mostra Bruce Raymond, um dos líderes da marca, com amigos e cerveja na mão, em uma cena improvisada que capturava a rebeldia da época. Embora tenha provocado reações mistas, tornou-se símbolo de toda uma geração de surfistas.

Stay High!

Lançada em 2016, essa campanha busca capturar a energia positiva e o entusiasmo que impulsionam surfistas e snowboarders a continuar explorando. O vídeo associado traz alguns dos maiores atletas da Quiksilver, como Mikey Wright, Tom Carroll, Travis Rice, Candide Thovex e Jeremy Flores.

Get It Now

Lançada para celebrar mais de cinco décadas de ação, essa campanha reúne atletas como Kauli Vaast, Sammy Carlson, Griffin Colapinto, Kanoa Igarashi, Jackson Bunch e Mikey Wright em uma série de imagens cheias de adrenalina que capturam o espírito aventureiro que define a marca. É um convite a correr riscos e viver intensamente, refletindo a filosofia que guiou a Quiksilver desde 1969.

Quiksilver atualmente

Com o passar dos anos, a Quiksilver passou por diferentes fases comerciais, incluindo momentos de crise e reestruturações. Em 2015, a empresa, que então operava também com as marcas Roxy e DC Shoes (comprada em 2004 por 87 milhões de dólares), entrou em concordata, e em 2017, após anos de profunda reestruturação, mudou seu nome para Boardriders, o grande passo para se transformar em grupo de marcas e se tornar um gigante de vestuário e equipamento esportivo. Além da Quiksilver, a Boardriders reúne marcas do setor como Billabong, Roxy, DC Shoes, Rvca, Element e VonZipper.

Em 2023, a Boardriders foi adquirida pelo grupo Authentic Brands em uma operação de 1,25 bilhão de dólares. Em 2025, a Liberated Brands, licenciatária de todas essas marcas nos EUA e Canadá, declarou falência e fechou todas as suas lojas.


Loja Quiksilver nos Estados Unidos.

O legado de Alan Green

Alan Green, o visionário discreto por trás da Quiksilver e pioneiro da roupa de surfe, faleceu em janeiro de 2025. Nascido em Melbourne, Austrália, em 1947, sua vida foi marcada pela paixão pelo surfe e por uma busca constante por inovação. Apesar da ascensão meteórica da Quiksilver, Green permaneceu sempre modesto, com uma presença discreta na mídia. Famosamente enfatizou o esforço coletivo por trás da marca, dizendo:

“A Quiksilver nunca foi sobre uma única pessoa. Sempre foi um grupo de pessoas pensando globalmente, agindo localmente e guiando a marca a partir do consenso.”

O legado de Alan Green se reflete não apenas nos produtos icônicos que criou e na empresa que construiu, mas também em seu impacto duradouro na cultura do surfe.


Alan Green desfrutando de uma sessão de surfe.