Nos últimos anos, surgiu uma nova geração de marcas de surf criadas por surfistas que decidiram se afastar do modelo corporativo tradicional.
Algumas são projetos independentes, outras nem tanto. Mas o que todas têm em comum é uma identidade própria e a busca por resgatar a essência do esporte, questionar as lógicas do mercado e se conectar diretamente com a comunidade.
Nesta nota, repassamos cinco dessas propostas que hoje ditam o ritmo do surf contemporâneo: Steko, Rivvia Projects, Florence Marine X, Former e Ritual Vision. Cada uma, a partir de sua própria visão e escala, representa uma maneira diferente de entender o surf e construir uma marca em 2025.

Ritual Vision, a marca australiana de óculos com uma estética core dos anos noventa.
Steko
Origem e contexto
A Steko é a nova marca independente criada por Kolohe Andino, apresentada publicamente no final de 2024 e concebida como a evolução natural da 2%, seu projeto anterior.
O lançamento acontece em um momento-chave de sua carreira: logo após encerrar uma relação de mais de 17 anos com a Red Bull. Trata-se da transição de atleta patrocinado para criador de marca.
A decisão reflete a sua vontade de se distanciar do ambiente corporativo e retornar aos valores mais core do surf: autenticidade, criação de cultura e comunidade.

Filosofia e estilo
A Steko se define por um espírito rebelde e deliberadamente provocador. Nas palavras do gerente de vendas da marca, Chris Wagaman:
"Não somos contra a indústria, só estamos dizendo: 'Vamos contra a corrente, vamos incomodar um pouco os dedões grandes'. E vamos nos divertir muito fazendo isso. Pense na Volcom em 91."
Com essa abordagem, a Steko busca recuperar um ar underground, uma identidade fora dos moldes corporativos tradicionais do surf.
Produtos e estética
Em sua primeira linha, a Steko lançou roupas com estética baggy / vintage / alternativa: bermudas d'água (boardshorts) longas, camisetas largas e bermudas de até 24 polegadas.
O design inclui detalhes como camuflados, estampas de caveira e efeitos faux denim (falso jeans), evocando uma vibe de rua, rebelde e contracultural — bem longe da estética limpa ou mainstream típica do surf tradicional.

Lançamento e estratégia de mercado
Durante 2025, a Steko deu seus primeiros passos formais no mercado: sua primeira coleção já foi enviada para um grupo selecionado de surf shops nos Estados Unidos.
A ideia comercial não é saturar o mercado, mas sim se posicionar como uma marca "de culto": segundo Wagaman, eles buscam replicar um modelo semelhante ao da Stüssy ou da Obey — que exige que os consumidores a "procurem", em vez de vê-la em todos os lugares.

Rivvia Projects
Origem e contexto
A Rivvia Projects foi lançada em 2022 por Julian Wilson. O surfista australiano decidiu deixar para trás o patrocínio corporativo tradicional — após um conflito com seu antigo patrocinador — e criou a Rivvia como uma aposta pessoal em uma marca mais autêntica, ligada ao seu estilo de vida.
A marca acompanha a tendência de surfistas profissionais que criam suas próprias marcas, assumindo o controle de sua imagem e integrando o surf com a cultura urbana, múltiplos esportes e lifestyle, ampliando o conceito tradicional de "marca de surf".

Filosofia e proposta
A Rivvia se define como uma marca de lifestyle ativo: seu lema, "Active Discovery", busca inspirar uma vida guiada pelo lazer, pelo movimento e pela exploração. Ela combina o surf com uma abordagem casual, que vai desde a estética urbana até coleções em parceria com marcas de golfe, esporte que Wilson também pratica.
No fim das contas, o que a Rivvia Projects oferece são peças versáteis, confortáveis e pensadas para um estilo de vida dinâmico, não apenas para surfar.
Modelo de negócio e relação com atletas
A Rivvia não atua como um patrocinador tradicional: por exemplo, o surfista Ryan Callinan não apenas veste a marca, mas também se tornou coproprietário. Essa abordagem de "sociedade + participação real" marca uma mudança em relação aos contratos convencionais de patrocínio.

Julian Wilson vestindo a coleção que mistura surf e golfe.
Atualidade e comunidade
Em 2025, a marca contratou o jovem surfista brasileiro Mateus Herdy que, poucos dias após assinar o contrato, conquistou uma final no US Open, exibindo a marca em um palco de alto nível.
A Rivvia mantém a essência definida por Wilson: uma marca pessoal, flexível, "multiesportiva", que busca se conectar com quem vive o surf como estilo de vida, e não apenas como esporte.
Recentemente, lançaram a coleção “Uncommon Projects”. Com uma estética baggy e vintage, ela se dirige ao público jovem com o lema: "LED BY THE NEXT GEN : DESIGNED FOR THE NEXT GEN" (Guiado pela próxima geração: desenhado para a próxima geração).
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Former
Origem e contexto
A Former foi criada pelos surfistas Dane Reynolds e Craig Anderson, junto com o skatista Austyn Gillette e o falecido Dylan Rieder.
Depois de muitos anos surfando e andando de skate para marcas multinacionais, eles decidiram criar a própria marca pela qual queriam correr e as roupas que queriam usar.
A marca nasceu como uma reação à tradição: um projeto independente desenhado para romper com as normas corporativas, a previsibilidade da indústria e os moldes habituais das roupas de surf e skate.

Dane Reynolds, Austyn Gillette e Craig Anderson.
Filosofia e proposta
A Former se define como uma marca "rider owned & operated" (de propriedade e operada por atletas), focada em quem busca desafiar tudo. Combina surf, skate e cultura urbana, refletindo a visão criativa e pessoal de seus fundadores.
A identidade da marca se centra na individualidade, no estilo e na autenticidade, afastando-se do marketing de massa e dos esquemas tradicionais da indústria.
Produtos e estética
A linha inclui roupas e acessórios inspirados no surf e no skate, com cortes modernos, detalhes gráficos e um estilo urbano que combina o descontraído com a criatividade artística de seus fundadores. Cada peça busca ser funcional, mas com personalidade, representando a filosofia de independência e rebeldia da marca.
O que traz para o surf moderno
A Former exemplifica a tendência de atletas que assumem o controle criativo e criam suas próprias marcas. Sua proposta desafia a indústria estabelecida, oferecendo roupas de qualidade com identidade forte e que não são produzidas em massa.
Além disso, propõem-se a ser uma ponte direta entre a cultura do surf e do skate, sem depender de corporações ou estruturas tradicionais.

Ritual Vision
Origem e contexto
A Ritual Vision é uma marca australiana de óculos de sol criada por surfistas: cofundada por três pesos-pesados do freesurfing — Harry Bryant, Noa Deane e Mikey Wright —, com Dion Agius no papel de diretor criativo.
Desde a sua origem, a marca se apresenta como uma alternativa ao modelo corporativo tradicional: seu objetivo é oferecer óculos de alta qualidade, reciclados e a um preço acessível, em contraste com muitas marcas premium de óculos de sol.
Eles são voltados para o mercado do surf e o público jovem. Não tem como foco margens de lucro gigantescas, mas sim a cultura e a comunidade.

Filosofia e proposta
A Ritual Vision se inspira na cultura do surf dos anos noventa, os "anos dourados", celebrando a individualidade e uma estética livre. A marca define sua identidade como contracultural, influenciada por surfistas core e pela juventude que vive o surf com espírito independente.
Produtos e materiais
Os óculos da Ritual são fabricados com policarbonato reciclado moldado por injeção, o que, segundo Dion Agius, oferece armações mais robustas, resistentes ao calor e duráveis, em comparação com as armações de acetato tradicionais que podem se deformar com a exposição ao sol.
Essa abordagem permite manter um preço competitivo sem sacrificar a qualidade nem a funcionalidade, tornando a Ritual Vision atraente tanto para surfistas veteranos quanto para os jovens groms.

O australiano Mikey Wright usando óculos com muito estilo dos anos 90.
Team Riders
A Ritual Vision conta com uma equipe diversa de surfistas e criativos, liderada pelos cofundadores Harry Bryant, Noa Deane e Mikey Wright, com Dion Agius como diretor criativo.
A eles se somam surfistas de renome que reforçam a identidade core da marca: Mason Ho, Milla Coco Brown, Hughie Vaughan, Parker Coffin, Holly Wawn, Rolando “Rolo” Montes e Benny Howard.
Esse grupo não traz apenas visibilidade, mas credibilidade: todos são surfistas ativos que representam a verdadeira cultura do surf e participam dos testes de produtos, garantindo que os óculos sejam funcionais e reflitam a filosofia da marca.
Evolução recente e estratégia
Desde o seu lançamento, a marca tem tido uma forte demanda: segundo a Stab Magazine, no primeiro trimestre eles esgotaram todo o estoque disponível, mesmo após reposições, o que reflete uma recepção muito positiva do seu público-alvo.
Além das roupas e dos óculos (eyewear), a Ritual Vision aposta na produção audiovisual: a marca já está trabalhando em seu primeiro filme, com a intenção de reviver a cultura dos longas-metragens de surf.
Com esta foto, eles compartilharam o prêmio de “marca disruptiva do ano” concedido pela revista Stab.
Florence Marine X
Origem e contexto
A Florence Marine X não poderia faltar nesta lista. Embora sua escala e alcance sejam maiores do que os de marcas boutique como as anteriores, ela também tem sido uma marca disruptiva na indústria do surf.
A marca foi fundada em 2020 por John John Florence, em colaboração com a família Hurley / Kandui Holdings. Sua criação ocorreu após o fim da parceria de John John com seu antigo patrocinador, com a intenção de desenvolver roupas e equipamentos testados no North Shore de Oahu.
Filosofia e proposta
A Florence Marine X se define como uma marca de equipamentos modernos e utilitários para todas as condições. Nas palavras de John John, eles buscam “fazer coisas que nos motivem a sair e prosperar nos elementos da natureza, enquanto fazemos o nosso melhor para proteger o oceano e a terra”.
A linha inclui boardshorts, roupas de borracha (wetsuits), lycras (rashguards) e vestuário em geral. Tudo desenhado com um critério utilitário e de alto rendimento.

Modelo de desenvolvimento e testes
A produção está estreitamente ligada ao próprio John John e à sua equipe. Cada produto passa por testes rigorosos dentro do programa Test Pilots, que inclui surfistas, remadores, pescadores, mergulhadores e skatistas, entre outras disciplinas aquáticas e de outdoor, garantindo que funcionem em condições reais.
Além disso, a marca incorporou os irmãos Ivan e Nathan Florence, mantendo o projeto próximo ao círculo original e reforçando sua identidade.

John John e Nathan Florence.
Pesquisa e Desenvolvimento (R&D)
Adicionalmente, a Florence mantém um programa de Pesquisa e Desenvolvimento (Research & Development), pensado para dar transparência ao processo de design. Nele, a marca compartilha novos conceitos em desenvolvimento e explica como e por que os produtos são feitos.
Entre os avanços recentes, incluem-se materiais como o Airtex (maior respirabilidade e conforto) e o Cordura (durabilidade e resistência). Atualmente, a marca está desenvolvendo o Alpha Direct Hoodie, um casaco de moletom com capuz feito de material térmico ultraleve.