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Como nasce um swell: por que a zona de geração faz tanta diferença

Luiz Guilherme Aguiar
Leitura: 12 minutos

Você olha a previsão e encontra um swell de sudeste com bom tamanho, período razoável e energia suficiente para criar alguma expectativa.

No dia marcado, chega à praia e encontra um mar bem diferente do que imaginava: ondas curtas e picotadas, uma entrando por cima da outra, séries inconsistentes e pouca organização.

Algumas semanas depois, aparece outra previsão com a mesma direção e parâmetros não muito diferentes. Mas, desta vez, o mar é outro. As ondas entram mais alinhadas, com frentes de onda mais inteiras e extensas, e séries mais consistentes. O oceano parece muito mais organizado de um modo geral.

Como dois swells aparentemente parecidos nas tabelas de previsão podem produzir mares tão diferentes?

como nasce um swell

Parte da resposta está na zona de geração

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Altura, período, direção e energia são informações fundamentais. Mas, para entender melhor o swell que vai chegar à praia, também vale olhar para onde ele nasceu — e principalmente para os ventos que o formaram.

É por isso que, para quem realmente quer entender e prever ondas, acompanhar apenas tabelas e gráficos de swell não conta a história inteira. É preciso olhar a origem.

Quando abrimos uma previsão de ondas, normalmente encontramos o swell já resumido em alguns parâmetros: altura, período, direção, e energia. Esses números descrevem características importantes do estado de mar que o modelo espera encontrar naquele ponto.

Mas aquelas ondas começaram sua história muito antes, em algum lugar do oceano onde o vento transferiu energia para a superfície da água. Entender essa origem ajuda a responder perguntas que os números, sozinhos, nem sempre esclarecem tão bem.


Aquele swell foi produzido por uma grande tempestade distante ou por ventos relativamente próximos da costa?

A pista de vento era extensa e persistente ou pequena e irregular?

Os ventos eram fortes e bem alinhados ou variavam bastante de intensidade e direção?

Existe apenas uma fonte de ondas ou diferentes zonas de geração enviando energia para a costa ao mesmo tempo?

Tudo isso pode influenciar a cara do mar que encontramos na praia.


Tudo começa com o vento

A maior parte das ondas que surfamos nasce da transferência de energia do vento para a superfície do oceano. Quando o vento começa a soprar sobre um mar calmo, sua turbulência e as variações de pressão exercidas sobre a superfície começam a produzir pequenas perturbações.

Surgem primeiro ondas muito pequenas e de período curto. À medida que o vento continua atuando, essas ondas crescem. A interação entre o ar e a superfície ondulada se torna mais eficiente e mais energia passa a ser transferida para o mar. Com tempo suficiente, aumentam tanto a altura quanto o período das ondas.

É importante entender que a tempestade não empurra uma enorme massa de água desde o meio do oceano até a praia. Ela transfere energia para as ondas.

Depois de geradas, essas ondas conseguem se propagar por centenas ou milhares de quilômetros transportando a energia recebida do vento. É essa energia que, algum tempo depois, pode aparecer na nossa costa na forma de swell.

O que determina o tamanho e as características das ondas geradas?

Para produzir um swell importante, não basta simplesmente existir vento sobre o oceano.

Três fatores são fundamentais: intensidade do vento, duração e tamanho da pista.

Intensidade do vento

Este é o fator mais intuitivo. Quanto mais forte o vento, maior a quantidade de energia disponível para ser transferida ao mar.

Nas mesmas condições, ventos de 60 ou 80 km/h têm muito mais capacidade de gerar ondas do que ventos de 20 km/h.

Mas olhar apenas para a velocidade máxima é um erro. Um vento muito forte que dure pouco ou atue sobre uma pequena área pode ser menos eficiente do que ventos um pouco mais fracos que permaneçam soprando durante muito tempo sobre uma extensa região do Oceano.

Duração do vento

A transferência de energia não acontece instantaneamente. Imagine ventos de 70 km/h atuando sobre o oceano durante três horas. Agora imagine os mesmos ventos mantendo aproximadamente sua direção durante um dia inteiro.

O resultado será diferente: quanto mais tempo as ondas permanecem sob a ação de ventos favoráveis, mais oportunidade existe para receberem energia e crescerem em altura e período.

Por isso, para analisar uma zona de geração, não basta observar uma única imagem do mapa meteorológico. É preciso acompanhar sua evolução.
Uma enorme mancha de ventos fortes pode impressionar em determinado horário e desaparecer poucas horas depois.

Outra pista, menos espetacular em uma única imagem, pode permanecer ativa durante um ou dois dias e acabar sendo muito mais eficiente.

Área do vento (tamanho da pista)

Além de intensidade e duração, existe outro ingrediente fundamental: espaço.

Chamamos de pista de vento, ou fetch, a extensão do oceano sobre a qual os ventos sopram com características relativamente semelhantes.

Se ventos fortes atuam sobre uma faixa muito pequena do mar, as ondas têm pouco espaço para permanecer recebendo energia.

Se a pista se estende por centenas ou até milhares de quilômetros, existe uma região muito maior disponível para o crescimento das ondas. É por isso que grandes pistas de vento chamam tanto a atenção de quem trabalha com previsão.

Vento forte + longa duração + pista extensa = grande potencial de geração.

Esses três fatores estão entre os elementos fundamentais usados para entender o crescimento das ondas dentro de uma zona de geração.

Direção do vento

Não basta a pista ser grande e ter ventos fortes. Ela precisa estar bem direcionada para onde você quer surfar.

O vento concentra a geração de ondas em torno da direção em que sopra, embora exista sempre algum espalhamento para direções vizinhas.

Uma enorme pista de vento pode, portanto, produzir um mar gigantesco no meio do Atlântico e mandar relativamente pouca energia para o litoral que estamos observando.

Por isso, uma das perguntas mais importantes ao analisar os mapas é: Essa pista está apontada para onde?

Se os ventos estão bem alinhados com a nossa costa, há maior potencial para que uma parcela importante da energia gerada viaje em nossa direção.

Caso contrário, o espetáculo de cores no mapa pode produzir muito mais ondas para outro lugar do que para a praia onde pretendemos surfar.

Deslocamento da Pista

Além de todas as características já citadas sobre a pista de ventos que são determinantes para a geração de um swell, o próprio deslocamento da pista de ventos sobre o oceano também influencia bastante a transferência de energia para as ondas.

Se uma tempestade se desloca muito rapidamente, pode deixar para trás as ondas que vinha alimentando e começar a gerar outras em uma nova região.

Por outro lado, se a pista permanece relativamente estacionária durante bastante tempo ou se desloca na mesma direção das ondas, isso permite que determinadas componentes continuem recebendo energia.

Para o leitor não especialista, o principal é guardar uma ideia: não basta saber onde a pista está. É importante saber como ela evolui e para onde está se deslocando. Idealmente, a melhor pista é a que se desloca na mesma direção das ondas, ou que fica estacionada.

Gradiente de pressão

Grandes swells estão frequentemente associados a sistemas de baixa pressão, especialmente aos ciclones extratropicais do Atlântico Sul.

Mas, não é apenas o valor da pressão no centro da baixa, isoladamente, que determina o potencial de geração. O gradiente de pressão, ou seja, a diferença de pressão entre sistemas próximos, também tem um papel importante no swell gerado.

Quando uma baixa pressão intensa atua junto a uma alta pressão forte, as isóbaras ficam mais próximas e o gradiente aumenta. Essa configuração favorece ventos mais fortes e pode também contribuir para a formação de uma pista mais extensa, persistente e organizada sobre o oceano.

Na prática, isso significa que as ondas podem permanecer por mais tempo sob a ação de ventos fortes e relativamente constantes, recebendo energia de maneira mais contínua.

O forecaster Sean Collins, fundador da Surfline, chamava atenção justamente para esse aspecto. Com base em sua experiência de previsão e também de navegação oceânica, ele observava que sistemas de alta pressão muito fortes associados às tempestades costumavam produzir ventos mais constantes e persistentes.

Segundo Collins, essas situações frequentemente estavam associadas a swells mais consistentes, com mais ondas por
série e frentes de onda mais longas. Ele próprio ressaltava, porém, que essa relação vinha principalmente da observação prática, e não de estudos científicos específicos sobre consistência de swell.

Por isso, ao analisar os mapas, não basta olhar apenas para a pressão mínima no centro do ciclone. É mais importante observar como a alta e a baixa interagem, qual gradiente de pressão se estabelece e, principalmente, qual campo de ventos essa configuração produz sobre o oceano.


Veja também:
Espectro de ondas: o raio-X do mar
Swell do Dia das Mães: lenda ou verdade?


Quando as vagas se transformam em swell

Dentro da zona de geração, o vento ainda está agindo diretamente sobre as ondas. Tecnicamente, essas ondas são chamadas de vagas, ou wind sea.

Ali, o mar tende a ser bastante irregular. Existem diferentes tamanhos, períodos e direções convivendo ao mesmo tempo. Quando essas ondas deixam a zona de geração, param de receber energia diretamente daquele vento e começam a viajar livremente pelo oceano. Passamos então a falar em ondulação, ou swell.

Durante essa viagem acontece algo muito importante. Ondas de diferentes períodos se propagam com velocidades diferentes. As componentes de período maior avançam mais rapidamente e vão se separando das componentes mais curtas.

Esse processo, chamado de dispersão, ajuda a organizar o estado de mar durante a propagação. É uma das razões pelas quais um swell produzido por uma tempestade distante pode chegar à costa muito mais organizado do que o mar extremamente irregular existente dentro da própria zona de geração.

Mas distância, sozinha, não garante qualidade.

A organização final também depende das características da fonte, do espalhamento em períodos e direções, da interação com outros sistemas e, posteriormente, das transformações que as ondas sofrerão ao encontrar o fundo próximo à costa.

Da zona de geração para o surf: três situações reais

Agora podemos voltar à pergunta do começo.

Como diferentes zonas de geração se traduzem no mar que encontramos na praia?

Os três exemplos reais a seguir, todos no Atlântico Sul, ajudam a visualizar essa relação.

1. Uma grande pista de SSO: swell sólido e organizado

No primeiro caso, temos uma configuração muito eficiente. Uma profunda baixa pressão está posicionada sobre o Atlântico Sul, enquanto uma forte alta pressão ocupa o continente.
Entre os dois sistemas existe um grande gradiente de pressão.

O resultado é uma extensa faixa de ventos fortes e persistentes de sul-sudoeste (SSO), muito bem direcionada para o litoral do Rio de Janeiro.A pista é grande, intensa e relativamente distante. Além disso, o sistema permanece organizado durante tempo suficiente para transferir muita energia ao oceano.

O resultado é um swell sólido, com séries bem marcadas, frentes de onda mais inteiras e extensas.


Figura 1 – Grande pista de ventos de SSO formada entre uma alta pressão continental e uma baixa pressão profunda sobre o Atlântico Sul. A pista extensa, intensa e bem direcionada para o Sudeste brasileiro favorece a geração de um swell sólido e organizado.

2. Uma pista costeira de SE: ondas curtas e irregulares

No segundo caso, a configuração atmosférica é bem diferente.

Existe uma alta pressão sobre o oceano, mas não há uma baixa pressão profunda adjacente formando um grande gradiente. Os ventos de sudeste atuam relativamente perto da costa, são mais fracos e apresentam menor persistência.

Nesse caso, as ondas são produzidas perto do litoral e dispõem de menos tempo e distância para crescer e se organizar antes de chegar à praia. O período tende a ser mais curto e a energia menor.

Mas a diferença não aparece apenas nos números. A cara do mar muda. As ondas tendem a chegar com menor organização, séries menos definidas e intervalos pouco claros entre elas.
As frentes de onda também podem ser mais curtas e irregulares, criando aquele aspecto que o surfista costuma chamar de mar picotado.

É muito diferente daquela sequência bem marcada de calmaria e série observada num swell mais organizado. Isso não significa necessariamente surf ruim. Um bom banco de areia, vento local favorável ou determinadas características da praia podem produzir ondas divertidas. Mas, a natureza do estado de mar é outra.


Figura 2 – Pista de ventos de sudeste relativamente próxima da costa. Sem uma baixa pressão profunda adjacente, o gradiente de pressão é menor e os ventos são mais fracos e menos persistentes do que no primeiro exemplo.

3. Duas zonas de geração: quando dois mares chegam juntos

O terceiro exemplo é ainda mais interessante.

Existe uma baixa pressão estacionada distante da costa, produzindo uma pista de ventos de sudeste relativamente bem formada.

Essa fonte gera um swell de SE, período médio e razoavelmente organizado. Ao mesmo tempo, perto da costa atuam ventos de SE/ESE, produzindo uma segunda componente, mais curta e irregular.

Quando os dois sistemas chegam juntos, temos um estado de mar composto. É possível perceber as séries mais organizadas do swell distante entrando no meio de uma quantidade maior de ondas curtas e irregulares produzidas pela geração próxima.

As diferentes componentes podem ainda chegar por direções ligeiramente diferentes.

O resultado é um mar mais complexo. Em determinados momentos, entra uma série limpa e relativamente alinhada. Em outros momentos, podemos ter ondas curtas com menos energia. É difícil escolher “a boa”.

É justamente esse tipo de situação que mostra por que um único número de altura, período ou direção nem sempre consegue representar bem aquilo que o surfista vai encontrar na água.

Como vimos no artigo sobre espectro de ondas, diferentes sistemas podem coexistir no mesmo estado de mar.

Analisar as zonas de geração permite dar mais um passo: entender de onde veio cada uma dessas componentes.


Figura 3 – Duas fontes atuando simultaneamente: uma pista oceânica de SE associada a uma baixa pressão distante e uma segunda geração costeira de SE/ESE. As ondas produzidas pelos dois sistemas podem chegar ao litoral ao mesmo tempo.

Para entender melhor o swell, olhe também para sua origem

A zona de geração ajuda a explicar diferenças no mar que nem sempre aparecem claramente nos números, como consistência, organização e forma das ondas.

Intensidade e duração dos ventos, tamanho e direção da pista, gradiente de pressão, deslocamento da tempestade e a presença de outras fontes de ondas deixam sua marca no estado de mar que chega à costa.

Por isso, quem quer interpretar melhor uma previsão não deve olhar apenas para altura, período, direção e energia. Vale também acompanhar os mapas de vento e entender onde e como aquele swell foi formado.

Os modelos de onda mostram os parâmetros do swell que está chegando. Os modelos meteorológicos ajudam a entender características que esses parâmetros, sozinhos, não revelam.