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Conversamos com Max Petit-Breuilh, forecaster da Lineup no Chile

Bruno Aguilar
Lectura: 7 minutos

Nesta entrevista conhecemos um pouco mais sobre Max Petit-Breuilh, recém-chegado prognosticador da Lineup no Chile. Ele subiu pela primeira vez em uma prancha aos 17 anos, quando ferramentas como a Lineup ainda estavam muito longe de existir, e desde então decidiu que sua vida giraria em torno do surf.


Max Petit-Breuilh, forecaster da Lineup para o Chile.

Há 20 anos, fundou o site Chilesurf.cl com a ideia de mostrar o que estava acontecendo com o esporte entre seus amigos, tornando-se uma referência para o surf chileno, e tem sido um grande promotor em diferentes áreas: fotógrafo, dirigente esportivo, organizador de eventos e agora, como prognosticador do Chile em nossa plataforma.

Nesta entrevista, conheceremos um pouco mais sobre sua história, como desenvolveu seu conhecimento do mar e como funciona o oceano no Chile.

Como nasceu o Chile Surf?

O Chile Surf nasceu em 2005, no dia 10 de setembro. Antes, eu praticava downhill de bicicleta, esporte que parei por me machucar muito, e tinha criado um portal sobre esse tema. Sempre pratiquei esportes e entendia que, se você comunicava, podia reunir pessoas.

No começo, fiz o Chile Surf para meus amigos, tipo “vamos publicar nossas fotos, falar dos nossos assuntos, vou buscar financiamento para fazer isso funcionar”. Naquela época eu gostava muito da revista Marejada, e até hoje guardo meus exemplares. Um pouco inspirado nisso, comecei a fazer essa página web.


Chilesurf.cl

Como você desenvolveu seu conhecimento do mar?

Foi na raça. Morando em Santiago, olhávamos o clima e pensávamos “deveria estar acontecendo isso com o vento”, “estamos no período em que as ondas deveriam surgir por ali”.

Com meu amigo Macha, dono da El Ruco Surfshop, pegávamos nossas pranchas e pegávamos qualquer ônibus que costeasse pela Quinta Região para ir vendo o que estava rolando. Se encontrássemos alguma onda, gritávamos para o motorista parar e entrávamos para surfar ali mesmo.

O que mais se parecia com um surf report eram ligações de amigos por telefone. Depois recebemos mais informação, começamos a entender de onde vinha, surgiu o LOLA, a primeira invenção da Surfline.

Aqui no Chile nos rege a corrente de Humboldt. É uma corrente fria que vem do sul, por isso nosso clima é tão mediterrâneo e frio. Se não fosse assim, estaríamos em sérios problemas.

Essa corrente gera um vento sul muito potente e frio, que é o que predomina no Chile. Então, se você via que o vento mudava um pouco, sabia que em outro point protegido de ventos norte, por exemplo, poderia estar limpo e as ondas entrar bem. O vento era o fator de maior acesso que tínhamos na época.


Max em ação. Foto: arquivo pessoal.


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O que é a corrente de Humboldt?

Existem correntes universais que viajam pelos oceanos, e uma delas é a Corrente de Humboldt. Nasce abaixo da Nova Zelândia, lá na Antártida, bate no continente e começa a subir para o norte colada à costa. Isso cria todo o ecossistema e a riqueza em termos de quantidade de animais marinhos que temos no Chile e no Peru.

É uma corrente muito fria, o que faz com que tenhamos um clima como temos, com uma cordilheira impressionante muito próxima e sendo um dos países mais longos do mundo. Nosso clima é mediterrâneo puxando para frio.

A costa chilena não é quente para você usar apenas um short como no Brasil. Aqui essa mesma corrente nos obriga a usar uma roupa de borracha sim ou sim: a água está entre 14 e 16 °C de temperatura.

Esse conceito também implica que nessa parte do oceano aconteça uma grande quantidade de tempestades, no cone sul entre Chile e Nova Zelândia. Essas tempestades batem com ondas em Nova Zelândia, Melbourne, Fiji, e consequentemente em toda a costa chilena.

Isso também explica a potência que o mar pode alcançar no Chile, que é impressionante.

O mar no Chile tem uma regra: se você aprende a surfar de verdade aqui, pode surfar em qualquer onda do mundo, como Teahupo’o ou Pipeline, que são ondas muito técnicas e complexas.

No Chile há grande potencial para treinar todo tipo de onda. Se quer surfar Pipeline, venha para Arica, onde está uma das melhores ondas dessa categoria. Punta de Lobos também é uma onda brutal.

Quando eu estava aprendendo, entrei com Ramón Navarro, pelos morros. Com a má sorte de, ao entrar, entrar a calmaria perfeita e eu não percebi o que estava me metendo. Quando estava no morro, Ramón me disse: “tem que escalar”. E aí começou um dos meus piores pesadelos no surf. Vi entrar uma série de ondas brutais, totalmente fora dos meus limites. Não havia volta atrás, porque em Punta de Lobos, uma vez que passa o ilhote, não se pode sair por onde entrou.

Punta de Lobos, ícone do surf chileno, oferece ondas grandes de categoria mundial.

Como funcionam os períodos de ondas grandes no Chile?

O Chile tem aproximadamente 4.400 km de costa, diante de um dos mares mais ativos do planeta. Com o nível de tempestades que há nessa região, esses períodos se criam regularmente e muito marcados.

Começa bem forte em março, e em maio migramos para o norte. A coisa fica muito fria no sul e os swells começam a bater forte, então vamos para praias como Portofino, Iquique, Las Urracas. Aquilo se transforma em um festival de ondas maravilhosas, com fundo de pedra. Também tem Arica, justamente onde está El Gringo: a primeira vez que surfei foi no CT, quando vieram Andy Irons, Kelly e todas as super estrelas.


El Gringo em Arica, também conhecido como o Pipeline sul-americano. Foto: Pablo Jimenez.

Existem lugares que não são mega ondas? Mais adequados para iniciantes ou intermediários?

Totalmente. Aqui tem ondas para todos, para quem quer começar, tem La Boca em Concón na Quinta Região, Maitencillo, Las Machas em Arica. As clássicas de fundo de areia. Além disso, temos presença na Polinésia: a Ilha de Páscoa. É uma outra onda, podemos surfar sem roupa de borracha, não somos regidos pela corrente de Humboldt.

Aqui pode-se surfar grande parte da costa chilena, ao menos 70% é surfável em algum momento.

Você pode conferir Maitencillo Norte ao vivo através da nossa câmera.

Como você descreveria a cultura do surf no Chile?

O chileno em geral é uma pessoa muito amigável, mas às vezes falta um pouco aprender essa cultura que já está escrita. Algo que me impressiona muito no Peru, onde há uma cultura surfe muito interessante e, felizmente, temos absorvido esse aprendizado.

No Chile pulamos muitas etapas. Começamos direto no shortboard, não entendíamos o conceito de longboard ou single fin.

Tínhamos a revista Marejada, mas não há uma cultura forte do surf. Por exemplo, a maioria das pessoas mora em Santiago e vai para a costa nos fins de semana, enquanto no Peru a capital fica no mar. Não quer dizer que seja ruim, mas é nossa realidade.

O que te motivou a entrar para o time da Lineup?

O surf é como a vida: as ondas são as oportunidades, a prancha é sua preparação técnica, e você precisa estar mental e fisicamente preparado para capturar essa oportunidade que passa na sua frente. É de sincronia, de estar conectado com o que está fazendo.

Curiosamente, faço parte do Rescue Surf, um projeto com enfermeiras, mergulhadores e socorristas. Nesse projeto, além de informar, o objetivo é educar, para que nossa relação com o mar seja mais segura. Estávamos nesse processo, quando chegou um e-mail do Fabián, da Lineup.

Quando chegou a proposta, caiu como uma luva. É muito legal poder participar de um projeto dessa categoria, com um produto muito bem desenvolvido. Além disso, me motiva aprender coisas novas. Já fiz três ou quatro reports, em cada um deles errei mas também aprendi muito.

Eu adoro surfar e adoro compartilhar, e essa é uma maneira de fazer isso. Pode ter um alcance muito bonito e ser uma grande contribuição para a cultura do surf no Chile e na América Latina.


Max aproveitando o oceano.

O que os usuários da Lineup no Chile podem esperar nesta etapa?

O bom é que vamos ter uma boa quantidade de câmeras bem posicionadas. Além disso, ter agentes locais associados em cada lugar vai permitir conseguir informações interessantes para o público.