A previsão de ondas costuma acertar no seu pico? Se a resposta é não, a primeira questão que é: A previsão que você olha no site é feita para o local aonde você surfa? A resposta (muito) provável a esta pergunta é não, e é preciso entender que existe uma diferença significativa entre a onda prevista pelo modelo e a onda no local aonde você surfa.
Os principais modelos de previsão de ondas são modelos globais, que usam malhas compostas por milhares de pontos espaçados por alguns quilômetros a fim de calcular a propagação da onda desde a sua zona geração, em oceano profundo, até a costa. Isso significa que estes modelos não possuem o refinamento necessário para computar os efeitos provocados por feições do relevo marinho como ilhas, baixios, e lajes, que são relativamente pequenos na escala do modelo, mas, são extremamente importantes na escala de interesse dos surfistas.
Para melhor ilustrar isso, na Figura 1 são apresentadas imagens de dois modelos globais amplamente utilizados nas previsões de onda dos sites especializados, o GFS WAVE/NOAA, com 22 km de resolução, e o ECMWF WAM, com 9 km de resolução espacial, ambos apresentados no aplicativo Windy.
Em ambos estes modelos, pode-se notar que o arquipélago das Cagarras, conjunto de ilhas defronte o litoral carioca (Rio de Janeiro), não interfere na propagação das ondas, assim como outras feições costeiras importantes, como costões e promontórios.


Figura 1. Modelos globais de previsão de ondas. No alto: modelo GFS 22km. Embaixo: modelo ECMWF WAM 9km (Fonte: Windy).
Isso fica mais claro na Figura 2, ao pegarmos os dados da onda prevista para o dia 25/09/25 às 16:00h em diferentes pontos do modelo. Primeiro, em um ponto ao largo do arquipélago, em águas mais profundas, com altura significativa (Hs) igual a 2.4 m, período de pico (Tp) igual a 13s, e direção igual a S (180º). Depois pegamos esta onda entre três diferentes pontos da orla: Praia do Leblon, Praia do Arpoador, e Praia de Copacabana. A altura de onda nesses três pontos da orla é a mesma, igual a 2.1 m.


Figura 2. Previsões de onda do modelo GFS-WAVE para o dia 25/09/25 (fonte: Windy). No alto: Onda prevista em um ponto ao largo das Cagarras (águas profundas). Embaixo (da esquerda para a direita): Onda prevista na Praia do Leblon, onda prevista na Praia do Arpoador, e onda prevista na Praia de Copacabana (Posto 6).
Estas previsões nas praias claramente não estão corretas, pois há diferenças significativas no caminho de propagação da onda até as mesmas, como mostrado na Figura 3, onde as setas amarelas representam a direção principal de propagação da onda (S). Na Praia do Leblon (ponto 1), a onda tem caminho livre e incide frontalmente na praia, bem diferente do que acontece na Praia do Arpoador, onde a onda encontra mais de uma ilha em seu caminho. Nesses obstáculos, a onda perde energia pelos processos de reflexão, arrebentação, e difração. Já na Praia de Copacabana, a onda tem de passar entre ilhas e encontra outro obstáculo, que é o promontório do Posto 6 (onde está o Forte de Copacabana), além de incidir obliquamente na praia, que também causa perda de energia.

Figura 3. Ilustração do caminho das ondas de S (180º) até as praias do Leblon (1), Arpoador (2), e Copacabana (3).
Para um cálculo mais preciso da onda junto à praia, é necessário em primeiro lugar ter uma malha mais refinada, que “enxergue” obstáculos de algumas dezenas de metros, algo impossível de ser feito com um modelo global diante das atuais limitações computacionais (maior refinamento exige mais pontos de cálculo). Além disso, idealmente, deve-se usar modelos capazes de computar efeitos não-lineares que ocorrem em águas mais rasas.
Para melhor ilustrar como seria um modelo mais adequado ao propósito dos surfistas, a seguir é apresentado (Figura 4 em cima) o resultado da propagação desta mesma onda do dia 25/09/25 (2.4 m | 13s | 180 graus) utilizando um modelo de ondas mais refinado, que faz parte do SisBahia – Sistema Base de Hidrodinâmica Ambiental (COPPE/UFRJ).
Este modelo é capaz de computar os efeitos das ilhas e demais feições do relevo marinho costeiro carioca, mostrando bem as regiões onde ocorre convergência de energia (e amplificação da altura da onda), como no canto direito da praia de Grumari, e as regiões onde ocorre divergência de energia (e redução da altura da onda), como nas praias do Arpoador e de Copacabana (Posto 6).
Repare neste mapa como a altura da onda varia espacialmente, de maneira que não faz sentido apresentar uma altura de onda representativa do litoral carioca. Há pontos da orla com altura menor que 0.5 m, enquanto há outros com mais de 4 m (lembrando que estamos falando de altura na escala científica). Impacto prático: Para qual praia você vai? Arpoador, com meio-metro, ou Grumari, com 4 metros? Saber a previsão correta influencia na escolha do pico e na prancha que você deve usar.
Até em uma mesma praia, como na Barra da Tijuca, pode haver variações grandes dependendo do ponto onde você extrai o dado do modelo. Na Figura 4 embaixo, os pontos 1 e 2 estão no mesmo eixo transversal, enquanto que os pontos 2 e 3 estão no mesmo eixo longitudinal. Qualquer um dos três pontos poderia ser usado por um modelo para representar a onda na Barra da Tijuca, apesar de apresentarem diferenças muito significativas (de 2.0 m para 3.8 m).


Figura 4. Mapa de distribuição da altura de onda do dia 25/09/25 (2.4 m | 13s | 180 graus) propagada com o modelo de ondas do SisBahia – Sistema Base de Hidrodinâmica Ambiental (COPPE/UFRJ). No alto: visão geral. Embaixo: vista aproximada da praia da Barra da Tijuca, com identificação de três pontos com alturas diferentes.
Dessa maneira, considerando que ainda não temos um modelo de ondas de águas rasas extremamente refinado acoplado ao modelo de ondas global para nos fornecer informações precisas sobre a onda nos picos de surf, cabe ao usuário aprender a interpretar da melhor forma os dados disponíveis.
Aqui no Lineup, oferecemos uma interpretação da previsão de ondas feita por especialistas do Brasil (RJ), Chile, Uruguai e Argentina. Semanalmente, os nossos forecasters analisam as previsões de onda disponíveis em águas profundas, e estimam como estas irão chegar nos principais picos da região, utilizando conhecimentos teóricos sobre a mecânica das ondas, e também muito conhecimento empírico adquirido em anos e anos de água salgada.
Nos próximos textos, vamos trazer conceitos básicos sobre os processos físicos envolvidos na transformação das ondas para águas mais rasas, como refração, difração, empinamento (shoaling), e arrebentação, afim de ajudar o nosso leitor a melhorar a sua capacidade de interpretação das previsões disponíveis na internet, aplicando este conhecimento no seu surf diário, e nas suas próximas surf-trips.
E você, já passou pela experiência de ver na previsão que vai ter 2 metros de onda e encontrar meio-metrinho no pico? Ou ao contrário? Conte-nos nos comentários.
(É por isso que sempre vale a pena conferir nossas câmeras antes de sair de casa)