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Os criadores do Buscaolas contam sua história

Bruno Aguilar
Lectura: 9 minutos

O Buscaolas nasceu em 2019 como resposta a uma necessidade concreta de um grupo de amigos: saber como estavam as ondas em tempo real. Criado pelos primos Bruno e Cristian Fournies, ambos surfistas, o projeto começou com uma câmera simples em La Boca, Concón. A notícia se espalhou pela comunidade surfista do Chile e rapidamente cresceu até se tornar o principal portal de câmeras de surfe do país.


Bruno e Cristian Fournies, os primos criadores do Buscaolas.

Em 2025, o Buscaolas foi adquirido pela Lineup como parte da nossa chegada ao Chile. O objetivo segue sendo o mesmo que impulsionou esse projeto desde o início: fornecer informações confiáveis e em tempo real para saber onde e quando entrar na água.

Conversamos com Bruno e Cristian Fournies, criadores do Buscaolas, sobre as origens do projeto, sua evolução e como foi a transição que levou a plataforma a fazer parte da Lineup, iniciando um novo capítulo.

Como surgiu a ideia de criar o Buscaolas?

Bruno: A ideia surgiu entre 2018 e 2019. Eu moro em Concón, na Quinta Região, e nós dois somos surfistas. Nasceu da necessidade de saber o estado das praias próximas. Naquele momento só existiam relatórios estrangeiros, como o Magic Seaweed.

Começamos para nós mesmos, para decidir com os amigos em qual praia surfar. Era aquela clássica pergunta: "Para onde vamos?". O Cristian morava nos Estados Unidos naquela época, onde já existia o Surfline. Então pensamos: “Vamos fazer o mesmo aqui, porque lá funciona muito bem”.

Começamos com a primeira câmera em La Boca, Concón. A qualidade era bem ruim, e o site era bem simples. Isso foi em 2019. Fomos colocando câmeras aqui na Quinta Região, para os amigos. A comunidade aqui não é tão grande, todos se conhecem. A notícia se espalhou, começou a entrar muita gente, nossos servidores não davam conta. Aí dissemos: “Vamos profissionalizar isso, montar um site que se sustente”.

Mas claro, os custos aumentaram, e aí começamos a pensar em como sustentar o projeto. Assim começou todo o crescimento. A própria comunidade começou a nos pedir coisas. Passou de algo entre amigos a se tornar uma startup.


Bruno Fournies nos primeiros dias do Buscaolas.

Já tinha um histórico de iniciativas de câmeras de surfe no Chile?

Bruno: Sabia que em Pichilemu teve um ou dois surfistas que colocaram câmeras. Um dos nossos parceiros lá já tinha recebido pessoas que tentaram. Depois, nas áreas de windsurf e kitesurf, havia dois portais com algumas estações e câmeras que mostravam cinco fotos por minuto. Isso era o que existia.

Diria que fomos os primeiros a fazer com boas câmeras e relatórios aqui no Chile.

Como foi a recepção do Buscaolas na comunidade surfista quando ficou mais conhecido?

Bruno: No geral foi boa. Eu conhecia bastante gente e isso ajudou em vários pontos. Claro que em algumas áreas há um certo receio. Aqui no Chile há muitas praias inexploradas ou com pouca urbanização. São praias mais secretas, os locais protegem bastante. Lá, não querem câmeras, diferente de Concón, onde as praias são bem populares.

Sempre tivemos muito apoio e nos sentimos parte da comunidade, com o feedback e as visitas. Se colocávamos uma nova câmera e alguém dizia “podem mover um pouco para a direita?”, a gente fazia.

Esses pequenos detalhes nos mantiveram em contato constante. Além disso, como eu estava envolvido no mundo do surfe, sempre recebia comentários sobre como éramos vistos e como estávamos indo.


Fazer parte da comunidade sempre foi o pilar do Buscaolas.

O time do Buscaolas era só vocês dois? Como funcionava o projeto em termos de equipe?

Bruno: Nós dois estávamos à frente. O Cristian na parte técnica, e eu mais na relação com o mundo do surfe.

Tínhamos pessoas que trabalhavam com a gente, que resolviam problemas técnicos nos locais. E nossos parceiros também faziam parte da equipe, ajudavam com a manutenção, com as relações e na instalação de novos pontos.

São primos. Como é trabalhar em família?

Bruno: Muito bom. Nós dois surfamos, compartilhamos a mesma paixão. Parte do sucesso que tivemos — na época fomos o maior portal do Chile — foi graças a isso. Estávamos bem alinhados.

Cristian: Tínhamos funções bem definidas. Cada um cuidava da sua parte, e nos consultávamos quando necessário, mas as decisões gerais sobre o Buscaolas eram sempre tomadas em conjunto.

Passamos a ser o portal número um não apenas pelas câmeras, mas porque colocamos previsões específicas para cada praia. Tínhamos mais precisão do que o Magic Seaweed ou o Surfline, que usavam modelos genéricos para o mundo todo. As pessoas começaram a perceber isso.

Por exemplo, começamos a dar nomes aos swells em homenagem aos cachorros das praias. Isso gerou um dinamismo e um crescimento na comunidade.

Como é isso dos nomes dos cachorros?

Bruno: Em várias praias tem cachorros que são como parte da comunidade. Então quando chegava um swell, a gente dava nomes como "Maré Benito", que é um cachorro daqui de Concón, ou "Maré Luán" se o swell batia mais forte em Pichilemu. Era uma brincadeira, para se divertir. E deu certo — até aparecemos na TV e nos perguntavam sobre isso.


Anúncio do swell "Rafita".

Além das câmeras, que outros serviços vocês ofereciam?

Bruno: Tínhamos uma seção com matérias e notícias para manter a comunidade informada sobre o que estava acontecendo no mundo do surf. Também instalamos estações meteorológicas em alguns portos e compartilhamos informações com a Marinha e outras entidades. Mas isso foi mais no início, nunca desenvolvemos muito. Ainda assim, o reconhecimento dessas instituições foi importante.

Cristian: O Buscaolas tinha dois princípios importantes. Um era fornecer informações para o surfista encontrar as ondas certas. O outro era que os pontos que cobríamos eram massivos. Não queríamos invadir uma praia onde a comunidade local é fechada. Primeiro conversávamos com os locais, explicávamos nossa proposta, e só então instalávamos.

A segunda parte era apoiar o surf por meio dos campeonatos. Criamos um sistema de pontuação que foi usado em competições nacionais. Também fazíamos streaming: levávamos as câmeras e o equipamento para transmitir tudo.

Bruno: Recebemos apoio do governo chileno também. Ganhamos alguns concursos e financiamentos públicos que ajudaram bastante. Tentamos ajudar a profissionalizar o surf.

Quais foram os desafios para manter uma plataforma como o Buscaolas funcionando todos os dias?

Cristian: A luz e a internet. (risos)

Bruno: No início, o maior desafio era manter o serviço estável. É difícil transmitir ao vivo de vários pontos ao mesmo tempo. Conseguimos montando muitos kits de transmissão.

Cristian: O mais difícil é que estávamos na praia. As condições não são ideais em termos de energia e conectividade. Ter um serviço estável, onde as câmeras não caíssem por falta de luz ou internet, foi um grande desafio.

No fim, conseguimos montar um sistema que durava anos sem problemas. Usávamos CPU, instalávamos em locais estratégicos, com zoom potente. Tudo isso fomos aprendendo no caminho.

Quantas câmeras chegaram a ter ativas?

Bruno: No auge, acho que foram 14.

Como surgiu o contato com a Lineup?

Bruno: As conversas começaram no ano passado. Já tínhamos tido contato com o Freewaves antes, e o Fabián me procurou para contar que estavam em fase de expansão e queriam entrar no Chile.

Cristian: Percebemos que a única maneira de crescer era olhar para a região, para a América Latina. Começamos a ver quem já estava atuando, o que existia. Embora o surf tenha crescido, para ser uma empresa rentável, precisávamos fazer o que a Lineup está fazendo agora: expandir. Por isso tomamos a decisão — ou virávamos concorrentes da Lineup, ou faríamos algo para sermos adquiridos.


Agora Buscaolas é Lineup.

O que motivou vocês a aceitar a proposta?

Bruno: Estávamos envolvidos em outros projetos também. O mercado do surf no Chile é menor do que no Peru ou na Argentina, então era difícil manter a rentabilidade. No último ano, mantivemos o projeto pela comunidade e por nós mesmos, mas já não tinha o mesmo impulso de antes. Foi aí que surgiu a Lineup.

O que significa para vocês o fato de uma empresa como a Lineup confiar no Buscaolas? O que enxergaram para continuar com a transição?

Cristian: Do meu ponto de vista, tínhamos os mesmos princípios. Não criamos o Buscaolas para “queimar” as praias, mas para respeitar o surf e também educar quem está começando. A Lineup tem essa mesma visão, de apoiar o surf em pontos massivos e fomentar a comunidade.

Bruno: No Buscaolas também apoiamos organizações na Quarta e Quinta Regiões, seja com doações ou ajuda com conteúdo, para proteger as praias. As leis de preservação ainda estão engatinhando, e vimos que a Lineup também compartilha dessa preocupação. Isso nos motivou a seguir conversando e recusar outras propostas.

Como imaginam o futuro da Lineup no Chile?

Bruno: Acho que a Lineup tem muito espaço aqui no Chile. Muito a crescer com o app, conhecendo o surf chileno. As comunidades são diferentes, as praias são frias e mais vazias. Não é raro ver ondas de nível mundial com só duas ou três pessoas no pico.

A Lineup tem uma grande oportunidade e pode contribuir muito com o ecossistema: oferecendo informação, apoiando atletas e ajudando o esporte que todos amamos a crescer.

Cristian: Todos os fãs do Buscaolas vão ganhar algo que sempre pediram, e que nunca conseguimos oferecer por questões de custo: um aplicativo.

Nossa plataforma sempre foi via navegador. Ter uma versão nativa em app é um ganho enorme para os usuários que agora estão migrando do Buscaolas para a Lineup. Foi a principal dívida que deixamos com a galera.

Olhando para trás, o que essa experiência deixou para vocês?

Bruno: Muita coisa. Foi um caminho bonito. Pessoalmente, extraordinário. Participar de algo ligado ao surf, que é minha paixão. Um projeto que virou empresa. Fazer isso com meu primo também foi muito legal.

Conhecemos diferentes realidades, nos conectamos com muita gente e vimos que era possível causar um impacto real nas praias e no esporte que amamos.

Claro, teve momentos difíceis e bons, mas foi muito aprendizado — como pessoa e como empreendedor. Se eu tivesse que escolher de novo, faria tudo igual.

Cristian: Mas você não pode. (risos)

Bruno: Acho que o capítulo do surf já foi. Agora é hora de aproveitar as ondas e curtir a Lineup.

Cristian: Para mim foi uma experiência muito rica. Aprendemos como funciona o surf no Chile, que é bem diferente entre o norte, centro e sul.

Todos esses anos nos esforçamos para conhecer os surfistas, entender quem ajuda a preservar as praias e fomentar o surf de forma sustentável. Tentamos sempre manter esse respeito.

Gosto de desafios, e o surf é um nicho bem desafiador. Se você consegue criar algo rentável nesse meio, pode fazer isso em qualquer setor.

Bruno: Deixamos nossa contribuição para a comunidade. Deixamos uma marca.