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Ondas grandes no Chile: a escola mais casca-grossa do Pacífico

Bruno Aguilar
Lectura: 5 minutos

No Chile existe uma regra não escrita: se você realmente aprende a surfar aqui, pode surfar qualquer onda do mundo. E não é mito — é uma realidade sustentada por ondas impiedosas, águas geladas, fundos de pedra e condições exigentes. Com mais de 4.400 quilômetros de costa diante de um dos mares mais ativos e potentes do planeta, o Chile é um verdadeiro laboratório para o surfe de alto rendimento em tubos pesados e ondas grandes. As tempestades do Pacífico Sul geram ondulações sólidas durante boa parte do ano, especialmente nos meses de outono e inverno.


El Gringo, também conhecido como o Pipe sul-americano, é um slab que não perdoa. 📷 Foto: @nicolasdcm

Se você quer entender por que este país forma surfistas capazes de encarar qualquer onda do planeta, basta olhar para seu litoral.

Punta de Lobos – Pichilemu

Tipo: Pointbreak de esquerda

Punta de Lobos é um dos pointbreaks de esquerda mais icônicos do mundo e uma das ondas mais conhecidas do Chile. Poderosa, consistente e muito versátil, pode oferecer desde sessões manobráveis com paredes perfeitas para carvings até tubos pesados quando as condições se alinham.

Formada por um fundo de pedra e areia, é protegida por duas enormes rochas — Los Morros — que funcionam como uma barreira natural, canalizando a energia e organizando as séries.

olas grandes en chile
Punta de Lobos em todo seu esplendor.
📷 Foto: @juanpabloreyes | Surfista: @cristianmerello

Com diversas seções navegáveis, não é raro que, com ondulações grandes, essas seções se conectem e gerem ondas de mais de 800 metros. Funciona em praticamente todas as condições, desde ondas de um metro até monstros de dez.

Quando o mar realmente sobe, Punta de Lobos é palco do Big Wave World Tour e do evento Lobos Por Siempre, que só rola quando o swell é forte o suficiente.

É uma onda nobre, mas exigente, capaz de testar tanto a técnica quanto a resistência de qualquer surfista. Aguenta condições XXL e continua funcionando com excelente qualidade.

El Gringo – Arica

Tipo: Slab de esquerda (com uma direita mais suicida)

El Gringo é uma das ondas mais perigosas do mundo. Quebra sobre um fundo de pedra vulcânica praticamente seco, com cerca de um metro de profundidade, cercada por rochas por todos os lados.

Acontece bem em frente ao Morro de Arica, na praia da antiga Isla El Alacrán, transformada artificialmente em península nos anos 60.

É uma onda curta, mas extremamente intensa, com tubos perfeitos, pesados e violentos que exigem total precisão. Qualquer erro pode resultar em impacto direto no fundo cheio de pedras, ouriços e picorocos.

Tem um take off praticamente em queda livre direto para o tubo, sem margem para dúvida ou erro. É o mais próximo de Pipeline fora do Havaí, mas em versão mais densa, fria e afiada.

Já sediou etapas do QS e campeonatos internacionais, por onde passaram várias lendas. Inclusive, foi palco de uma etapa histórica do tour mundial em 2007, vencida por Andy Irons contra Damien Hobgood.

El Buey – Arica

Tipo: Onda XXL, reefbreak de direita (às vezes esquerda)

El Buey é a onda gigante de Arica, um reef de águas profundas que desperta quando os grandes swells do sul atingem a costa. É uma montanha de água que quebra a mais de meio quilômetro da praia, com paredes que facilmente ultrapassam os 10 metros quando o Pacífico está ativado.

Diferente de El Gringo, que é mais compacto, El Buey é uma onda de mar aberto, com mais linha e tempo para preparar a manobra — o que não a torna menos intimidadora. O drop é crítico e o volume de água envolvido é brutal. Comprometimento é essencial.

As melhores vistas são da Playa El Laucho ou do Hotel Arica, de onde é possível assistir os surfistas enfrentando uma das ondas mais extremas do país.

O fundo é de areia, mas suficientemente profundo para que mesmo nas quedas mais violentas o surfista não o toque. A melhor temporada vai de maio a julho, quando os swells do sul atingem com mais força essa parte do Pacífico.


El Buey mostrando os dentes.

La Cosa – Iquique

Tipo: Slab de esquerda

La Cosa é uma das ondas mais pesadas e desafiadoras de Iquique. Um slab que quebra praticamente sobre pedra seca, com tubos grossos, compactos e extremamente técnicos.

Durante anos foi um pico exclusivo para bodyboarders e surfistas com tow-in, até que os irmãos Nathan e Ivan Florence conseguiram ser os primeiros a surfá-la na remada em uma visita recente ao Chile.

A onda é rápida e potente, com seções ocas e ledges que exigem técnica e um alto nível de comprometimento. Funciona melhor com maré alta ou enchente, e recebe swells tanto do norte quanto do sul.

Alguns pontos de atenção: o localismo, as correntes fortes e os ouriços no fundo. La Cosa é um pico reservado para surfistas experientes que buscam um desafio extremo.


La Cosa.

Conclusão

O Chile oferece um cardápio de ondas tão diverso quanto desafiador. Desde pointbreaks de nível mundial como Punta de Lobos, até slabs ultra técnicos como El Gringo ou La Cosa, passando por ondas de mar aberto como El Buey.

É um país que exige nível, preparo e respeito pelo mar. Quem aprende a surfar bem aqui, sabe que está pronto para encarar qualquer onda do mundo.