Há vinte anos, surfar ondas na Argentina era questão de sorte, paciência e intuição. Hoje, centenas de surfistas consultam os modelos de previsão de ondas antes de decidir se vão a Playa Grande, Chapadmalal ou Necochea. A cultura do surfe cresceu, mas também cresceu o conhecimento sobre o mar. Essa mudança ocorreu com o crescimento das escolas de surfe e o aumento de surfistas ativos, com o impulso dado pelos atletas argentinos em competições internacionais, com o acesso à informação em tempo real por meio de apps, câmeras e redes sociais, e pelo fato de que o surfe deixou de ser algo de verão para se tornar um estilo de vida presente durante todo o ano.
Com todo esse avanço, também mudou a forma de ler o mar e de planejar uma sessão. Se você quer melhorar seu critério e entender realmente o que está vendo ao abrir uma previsão, continue lendo.

Da era da intuição ao dado
Os surfistas das décadas de 70 a 90 e dos primeiros anos dos anos 2000 precisavam interpretar ventos, marés e observar continuamente o estado do mar; olhavam para o horizonte e imaginavam como as ondas viriam no dia seguinte.
Hoje, apenas conferindo apps e câmeras antes de ir à praia, podemos ter uma boa ideia de como estarão as condições, podendo prever a chegada de swells com vários dias de antecedência. Isso foi um grande avanço, principalmente para surfistas que moram a quilômetros da praia.
Dicas para interpretar previsões
Para saber interpretar os dados básicos encontrados em um app, é fundamental conhecer a orientação da costa da sua região e como os ventos entram nas praias.
Tipos de ventos para a localidade de Mar del Plata:
- Offshore (terra), Oeste.
- Onshore (maral), Este.
- Cross-offshore (cruzados da terra para o mar), NO/NNO/SO/SSO.
- Cross-onshore (cruzados do mar para a terra), NE/NNE/SE/SSE.
- Cross wind (laterais), Norte e Sul.
Formas de medir a intensidade do vento
Para interpretar uma previsão de ondas, o vento é um dos fatores mais importantes. Sua direção e intensidade podem transformar um swell perfeito em um mar desordenado impossível de surfar.
Existem diferentes unidades e escalas usadas em meteorologia e navegação. Embora pareçam técnicas no início, conhecê-las ajuda a ler qualquer relatório com muito mais clareza.
Unidades mais comuns:
Km/h – classificação geral:
Calma: 0 a 1 km/h
Ventinho: 2 a 5 km/h
Brisa muito leve: 6 a 11 km/h
Brisa leve: 12 a 19 km/h
Brisa moderada: 20 a 28 km/h
Brisa fresca: 29 a 38 km/h
Brisa forte: 39 a 49 km/h
Vento forte: 50 a 61 km/h
Tempestade: 62 a 74 km/h
Tempestade forte: 75 a 88 km/h
Tempestade muito forte: 89 a 102 km/h
Furacão: mais de 118 km/h
Nós e escala de Beaufort (BFT):
O nó é uma unidade de velocidade náutica, 1 nó = 1,852 km/h.
A escala de Beaufort é uma ferramenta clássica usada em meteorologia e navegação para estimar a força do vento pelos efeitos visíveis no mar e na terra. Vai de 0 a 12: 0 representa calma total e 12 um furacão ou vento extremamente forte. Cada nível indica a velocidade do vento em km/h ou nós e seus efeitos observáveis.
Exemplos práticos para surfistas:
Dia ideal para surfar: Beaufort 2–3, vento quase não mexe na superfície.
Vento offshore Beaufort 3–4: modela bem as ondas; acima de 5 pode dificultar o take off.
Vento onshore Beaufort 4 ou mais: estraga o mar, deixa picado ou “batido”.
Beaufort 6 ou mais: perigoso para banhistas, praias geralmente fechadas.
Mph
Milhas por hora, 1 milha = 1,609 km
M/S
Metros por segundo, unidade padrão para medir velocidade do vento, indica a distância percorrida pelo ar em 1 segundo.
1 M/S = 3,6 km/h
1 M/S = 1,94 nós
Rajadas
Aumentos repentinos de curta duração da velocidade do vento, causados pela interação do ar com o terreno, montanhas ou tempestades.
Duração curta: geralmente menos de 20 segundos
Frequência: podem ocorrer durante vento constante, mas com picos de velocidade mais altos
Exemplo: vento constante de 60 km/h pode ter rajadas de 100–110 km/h
Direção das ondas
É essencial conhecer a orientação da praia que frequenta. Uma praia orientada para o Leste, como Puerto Cardiel em Mar del Plata, recebe swell dessa direção diretamente, e ventos offshore criam condições ideais.
Em apps como Lineup, setas indicam a direção do vento, ex.: ⬅️ E ↘️ NE ⬆️ S ↖️ SE ↗️ SO. Também podem aparecer como DEG°, indicando direção da quebra da onda.

Períodos
Tempo entre duas cristas sucessivas passando pelo mesmo ponto, medido em segundos:
-
Muito curto: 3–6 s, gera mar desorganizado, ondas contínuas e fracas
-
Curto: 7–9 s, ondas pequenas e desordenadas, vento local
-
Moderado/Longo: 10–15 segundos, chegam em séries mais agrupadas e com maior espaço entre as cristas, ondas maiores, potentes e organizadas, provenientes de tempestades distantes que vão acumulando mais energia e volume à medida que chegam à costa.
Os períodos longos se associam ao mar de fundo (swell) e os períodos curtos ao mar de vento (wind swell), gerados pelos ventos locais.

Energia (Kj)
Indica potência e força do swell que vai chegar à costa.
Marés
Movimento periódico de subida (preia-mar) e descida (baixa-mar) causado pela atração gravitacional da Lua e do Sol.
Preia-mar: água cobre mais o fundo, ondas maiores, menos buraco, ideal em fundos rochosos
Baixa-mar: fundo mais exposto, ondas mais rápidas e tubulares, podem fechar mais em fundos inclinados
Recomenda-se conhecer o spot em cada estado da maré.

Surfar com informação é surfar melhor
Saber interpretar:
✅ ventos
✅ direção do swell
✅ período
✅ energia
✅ marés
Permite decidir se vale a pena madrugar ou fazer um passeio de fim de semana, além de conferir câmeras ao vivo, já parte do ritual do surfista argentino.