No limite difuso entre Uruguai e Brasil, onde as ruas mudam de idioma e os reais e pesos uruguaios se misturam nos bolsos, existe um lugar que durante décadas atraiu surfistas em busca de algo diferente. Em épocas em que conseguir pranchas, parafina ou acessórios era quase uma odisseia, do lado brasileiro do Chuí estava Kay Maloko. Ali, atravessar a rua era entrar em outro país e viver a magia de descobrir uma nova cultura, com marcas e produtos que não se encontravam em nenhum outro lugar. Kay Maloko se tornou durante décadas o ponto de encontro para surfistas de praias próximas com excelentes ondas, como La Coronilla, Santa Teresa e Punta del Diablo.
Conversamos com seu fundador, Farid Anoni, que nos contou como nasceu a loja, como cresceu junto ao surfe na região e o que a mantém viva até hoje.

Quando começou Kay Maloko?
Abrimos a loja em 1992, mais ou menos no dia 16 de janeiro. Era mais um sonho de surfista: ter um espaço, vender pranchas e algumas bermudas. Algo pequeno.
No Chuí, naquele momento, não havia nada igual. Havia outro rapaz que tinha fechado, e não ficou ninguém. Foi aí que começou Kay Maloko.
Antes disso, já trazíamos pranchas e vendíamos para amigos e conhecidos, desde 1989. Assim surgiu a ideia de abrir a loja: era o desejo de alguém que surfava e queria ter seu próprio espaço. Além disso, toda minha família vem do comércio.
Naquela época, se você queria comprar uma parafina ou um leash, era uma maratona. Era difícil conseguir coisas.
De 1992 a 1997 abríamos apenas na temporada. A partir de 1997 começamos a abrir o ano todo. Às vezes complica, mas aqui seguimos.

Kay Maloko Surf Shop.
Como era o surfe no Chuí nesses anos?
Na região há boas ondas, em lugares como La Coronilla, Santa Teresa ou Punta del Diablo. Antigamente atendíamos um público de verão, mas hoje também se mantém no inverno.
O Chuí é um shopping a céu aberto. As pessoas que vêm — do Uruguai ou da Argentina — vêm para comprar. É um clássico. Nós fomos plantando a semente do surfe.
De onde vem o público mais forte da loja?
Eu diria que no inverno, 70% é uruguaio, 20% brasileiro e 10% argentino. No verão, 99% uruguaio e gente da região, 1% brasileiro.
Como foi se adaptar às mudanças ao longo do tempo, quando tudo se tornou mais globalizado e os produtos mais acessíveis?
Nos reinventamos o tempo todo: produtos novos, promoções, bons preços. Houve épocas de febre de marcas como Quiksilver, Reef, Mormaii, que tiveram seu auge. Hoje, o que todo mundo compra é Vans. É mais dinâmico: se você não entra na onda, fica de fora.
Às vezes aposta-se em um produto novo e ele não explode. Ou há marcas que vendem muito no Brasil, mas aqui não.
O Chuí ainda é o mesmo de 20 anos atrás?
Não. Acabou aquela de jogar tudo em um cabide e vender. Faz anos que o Chuí vem melhorando no comércio. Hoje as pessoas buscam algo melhor: melhor atendimento, melhores lojas, melhores produtos. Os free shops impulsionaram muito isso.
A fronteira é um mundo à parte: não há muita lógica, nem economia, nem parâmetros. Entre colegas sempre conversamos: você não pode se programar muito. Não há meio-termo. Quem é da cidade sabe.

À esquerda, Uruguai (Chuy); à direita, Brasil (Chuí). Uma mesma cidade, dois países.
Como influencia a diferença de preços entre os dois lados?
O custo de vida é muito mais baixo no Brasil. Nos fins de semana, enche de gente fazendo compras em supermercados e farmácias. E, já de passagem, levam uma bermuda ou um par de tênis.
Uma diferença da Kay Maloko em relação a outras lojas é a variedade: você encontra produtos que não existem em outro lugar, com marcas importadas mas também brasileiras.
Quais produtos historicamente funcionaram muito bem?
As sandálias Reef foram um clássico. De 1994 até 2002 foi algo impressionante, assustava. Hoje o furor são os Old Skool da Vans. São clássicos.
As pranchas de bodyboard Morey venderam muito. Os softboards Brasil Natural também tiveram sua época. Outro furor foi quando o skate explodiu no Uruguai, em 1999–2000: era incrível o que se vendia de skates.
Lembro que em 2017, em pleno verão, encontramos no depósito 18 pares de sandálias Reef tamanho 45. Eram de um estoque comprado em 2008, e por algum motivo ficaram guardadas. Naquela época, não havia produtos Reef no mercado. Colocamos à venda e não duraram dois dias: todo mundo queria.

E quanto às pranchas? O que oferecem hoje?
No momento temos Eduardo Braga, Tropical Brasil e algo de Rusty. Ricardo Martins também, mas essas pranchas são mais sob encomenda.
Antes, uma prancha servia para todo tipo de onda. Hoje, o cliente quer algo personalizado, sob medida. Há muitas fábricas no mercado. Na loja temos pranchas Eduardo Braga, mas também se pode mandar fazer Rusty, Ricardo Martins ou longboards New Advance.
Há muito público uruguaio que gosta das pranchas Ricardo Martins, e podem conseguir aqui.
O conceito da loja, o nome “Kay Maloko” e o personagem, de onde surgem?
Surgiu ao assistir a um filme de surfe com dois amigos. No filme havia uma cena onde o cara falava de uma onda com esse nome. Ficou na minha cabeça e me pareceu perfeito para colocar como nome da loja. Alguns meses depois surgiu a oportunidade.
A loja não ficava na avenida principal, mas na rua de trás, onde passava menos gente. Por isso nasceu o boneco Kay Maloko, apontando para a loja para que os que vinham pela avenida soubessem onde nos encontrar.
Como Kay Maloko se mantém como clássico depois de tantos anos?
Todas as temporadas são uma incógnita. Mas sempre se trabalha bem. Às vezes acontece algo na Argentina ou no Brasil… já passei por tanta coisa aqui dentro. É uma incógnita, mas sempre segue. Esperamos que esta seja uma boa temporada.