Para quem não pretende “enfiar o pé na jaca” neste réveillon e quer manter o surf no pé, fizemos uma análise detalhada do pulso de Sul que irá atingir o litoral carioca neste fim de ano e início de 2025 (entre 31 de dezembro e 02 de janeiro). Este swell está associado a uma área de ventos que se formou sobre o Atlântico Sul entre um sistema de alta pressão atmosférica (1026mb) e uma baixa pressão adjacente (1002mb), gerando uma pista de ventos sobre a superfície do mar apontados para o Rio de Janeiro (figura 1), que atuou durante o final de semana.

Figura 1. Carta sinótica do Atlântico Sul no dia 29/12/24 (Fonte: Marinha do Brasil).
Como resultado, teremos uma nova ondulação chegando ao litoral carioca nesta terça-feira (31), último dia do ano, e atingindo ápice entre a tarde de terça e a manhã de quarta-feira (01), primeiro dia do novo ano, amenizando depois. Trata-se de um swell com tamanho divertido, algo em torno de 1 metro ao largo (na escala científica), e período curto, entre 9 e 10s. Em relação à direção de pico (mais energética), na terça-feira, dia 31, o swell irá chegar um pouco mais inclinado a Sul-sudoeste (SSO), virando gradativamente para Sul até atingir o seu ápice na quarta-feira, e depois amenizando e virando levemente para Sul-sudeste (SSE) na quinta-feira, até desaparecer no final da semana.
Para mostrar como essas variações nos parâmetros estatísticos do swell alteram a forma como as ondas chegam nas praias cariocas, fizemos simulações em águas costeiras com o modelo de ondas do programa SisBaHiA, da COPPE/UFRJ. Cabe ressalvar que estas simulações foram feitas com ondas regulares, usadas para representar um estado de mar de modo bem simplificado, não levando em conta a realidade de um espectro de energia das ondas, bem como o efeito de outros fatores que interferem na propagação das ondas, como as correntes de maré e de plataforma.
Dessa forma, para cada um dos três dias, definiu-se uma altura, uma direção, e um período de onda para entrada na fronteira ao largo do modelo, como mostrado na tabela abaixo. Estes parâmetros foram obtidos em um ponto ao largo das Ilhas Cagarras nos mapas de previsão do modelo Wavewatch III (NOAA), apresentados pelo aplicativo Windy.

Tabela 1. Parâmetros de entrada nas simulações com o modelo de ondas.
RESULTADOS
Os resultados são apresentados em forma de mapas de distribuição da altura da onda, lembrando que o modelo de ondas apresenta os seus resultados na escala científica de altura de onda, e não na escala “surfística”, onde uma onda de “1 metro” quebra um pouco acima da altura da cabeça do surfista.

Figura 2. Previsão de onda no litoral carioca para o dia 31/12/24 obtida através de simulação com o modelo de ondas regulares do programa SisBaHiA (COPPE/UFRJ).

Figura 3. Previsão de onda no litoral carioca para o dia 01/01/25 obtida através de simulação com o modelo de ondas regulares do programa SisBaHiA (COPPE/UFRJ).

Figura 4. Previsão de onda no litoral carioca para o dia 02/01/25 obtida através de simulação com o modelo de ondas regulares do programa SisBaHiA (COPPE/UFRJ).
Para o dia 31, os resultados indicam que, de uma maneira geral, teremos ondas com altura de arrebentação variando de 1.0 a 1.8 m na escala científica, ou, na escala dos surfistas, séries em torno de "meio+ a 1 metro" - altura do peito à cabeça. As ondas chegarão maiores na zona oeste da cidade, entre as praias da Barra e de Grumari, e menores nas praias da zona sul, especialmente no início de Ipanema, Arpoador e nos postos 5 e 6 de Copacabana.
A modelagem mostra que a maior amplificação irá acontecer próxima ao canto direito da Praia de Grumari, com altura de arrebentação em torno de 1,85 metros na escala científica (ou “1 metro servido” na escala dos surfistas – pouco acima da cabeça). Outro ponto de forte amplificação é o meio da Praia do Recreio, com 1,75 metros (“1 metro” para os surfistas – altura da cabeça). Já a Prainha tende a apresentar ondas significativamente menores do que nos melhores picos da região.
No dia 1º, com a virada da ondulação mais para Sul, os modelos indicam que o surf se mantém amplificado no Recreio, enquanto que no Grumari o ponto focal se desloca mais para o costão do canto direito da praia. Já na Praia da Macumba e no canto esquerdo da Prainha o modelo mostra que a virada da direção do swell poderá trazer mais ondas para estes picos.
Para o dia 02, o modelo indica uma queda significativa na altura das ondas em toda a região, com a Praia do Recreio se mantendo como um dos principais focos de convergência de energia.

Figura 5. Detalhe da modelagem na zona oeste para o dia 31.

Figura 6. Detalhe da modelagem na zona oeste para o dia 01.

Figura 7. Detalhe da modelagem na zona oeste para o dia 02.
Já nas praias da zona sul da cidade, de uma maneira geral, a modelagem indica que no dia 31 teremos mais tamanho na praia de São Conrado, no Leblon, e nas proximidades do Canal do Jardim de Alah.
No dia 01 o modelo indica que as ondas sobem um pouco em São Conrado e no meio da Praia de Copacabana (P5), e diminuem no resto da região,
Para o dia 02, as nossas simulações mostram uma queda geral no nível de surf, com exceção da Praia do Diabo,

Figura 8. Detalhe da modelagem na zona sul para o dia 31.

Figura 9. Detalhe da modelagem na zona sul para o dia 01.

Figura 10. Detalhe da modelagem na zona sul para o dia 02.
Como dito anteriormente, estes resultados devem ser levados com ressalvas, dadas as limitações do modelo de ondas regulares, que não leva em conta processos relevantes na propagação de ondas em águas costeiras, e também devido a possíveis erros nos parâmetros da onda de entrada, obtidos através das previsões de onda disponíveis, que já carregam erros desde a sua geração.
Além disso, cabe observar que a qualidade do surf não depende só do tamanho das ondas, de maneira que devemos encarar essas modelagens como uma indicação dos picos onde devemos encontrar ondas maiores, mas, não necessariamente, melhores. A qualidade do surf vai depender do tamanho das ondas, e também da interação destas com o fundo do mar, o vento, e a maré.
De todo modo, é interessante observar nestas modelagens como o relevo marinho e as feições costeiras do litoral carioca influenciam a altura das ondas que chegam em nossas praias, e como pequenas variações nos parâmetros da onda ao largo podem mudar o cenário.
Boas ondas e Feliz Ano Novo!