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Altura de onda: Uma questão de escala

Luiz Guilherme Aguiar
Lectura: 9 minutos

A primeira informação que todo surfista busca quando olha a previsão de ondas é: Qual tamanho estarão as ondas? Mas, antes de resolvermos esta questão, precisamos atacar um outro problema, talvez ainda mais complexo: A escala de alturas de onda.

Surfistas ao redor do mundo e modelos matemáticos definitivamente NÃO falam a mesma língua quando o assunto é altura de onda. Em outras palavras, uma onda com “1 metro” de altura para um surfista, dificilmente tem o mesmo tamanho de uma onda com “1 metro” de altura para outro surfista de outra localidade, assim como não tem o mesmo tamanho de uma onda com “1 metro” de altura para os modelos matemáticos de previsão de ondas. E, definitivamente, esta não é uma questão irrelevante. Pelo contrário, de nada adiantará buscarmos fazer previsões de onda cada vez mais precisas se não nos fizermos entender por quem as lê.

Antes de mais nada, temos de alinhar as nossas escalas, de maneira que quando falarmos que as ondas estarão com uma certa altura, você saiba exatamente o que isso representa.

Escala Científica (Real)

Para começarmos a esclarecer essa questão, vamos entender a escala usada pelos modelos matemáticos e boias de medição de ondas (ondógrafos), que podemos chamar de “escala científica” (ou “real”). Nesse caso, a altura da onda é exatamente igual à distância vertical entre a crista e o cavado da onda, como ilustrado na figura abaixo. Na zona de arrebentação, é a altura da face da onda onde o surfista surfa.


Ilustração da altura da onda real (científica).

Considerando esta escala, uma onda arrebentando com “1 metro” de altura (ou ~3 pés) mede exatamente “1 metro” (~3 pés) de altura no Sistema Internacional de Unidades (SI). Surpreendente, não? Parece óbvio, porém, a maioria dos surfistas quando pensa em uma onda de “1 metro”, ou “3 pés”, pensa em uma onda quebrando pouco acima da sua cabeça*, o que certamente representa uma onda com mais de 1 metro de altura de face.

(*) Relacionar a altura da onda às medidas do corpo humano também gera algumas subjetividades: “Altura da cabeça” de um homem no Timor Leste (1.59m) ou nos Países Baixos (1.84m)? “Altura da cabeça” de um homem ereto ou agachado sobre a sua prancha? A relação entre a altura da onda e o corpo humano é tratada mais à frente.

Escala Surfística (Havaiana)

Não há dúvidas de que os surfistas utilizam uma escala própria, na qual “1 metro” é um tanto maior que o “1 metro” do Sistema Internacional (SI), como ilustrado na figura abaixo. Mas, qual é a relação entre essas medidas?


Ilustração da comparação entre a escala do surfista e a escala real (SI).

Dizem que os surfistas medem as ondas pelas costas e que a altura das costas das ondas equivale a aproximadamente metade da altura da face. Faz sentido? Pra mim nunca fez. Primeiro porque não surfamos as costas das ondas. Segundo porque é quase impossível estimar a altura das costas da onda. E terceiro porque a relação entre a altura das costas e da face da onda varia em função de diversos parâmetros, como a esbeltez da onda e a inclinação do fundo do mar (uma onda com 1 metro de costas pode ter uma face muito maior quebrando em Teahupoo/Taiti em um swell com 16 seg do que uma onda de 1 metro de costas quebrando na Barra da Tijuca em um swell com 9 seg).

Acredito que o surgimento da escala “distorcida” dos surfistas venha de outro lugar, mais precisamente do Havaí, de onde vem boa parte da nossa cultura no surfe. Ao redor do arquipélago havaiano há diversas boias de medição de onda em operação, que fornecem, dentre outros dados, a altura das ondas em águas profundas (H0), que pode ser bem diferente da altura das ondas na arrebentação (Hb), dependendo do seu período e do relevo marinho.

Por exemplo, uma onda com 3 pés (~1 metro) de altura medida na boia em águas profundas, com período de 16-17 segundos (comum durante o inverno havaiano), pode facilmente quebrar com o dobro da altura (6 pés ≡ ~2 metros) em uma bancada amplificadora como a de Pipeline ou de Sunset Beach.


Ilustração de como se dá a transformação da onda em águas profundas (H0) para águas rasas (Hb).

Dessa forma, o surfista havaiano, acostumado a ter informações sobre a altura das ondas nas boias, teria criado uma escala própria, associando o tamanho das ondas no pico ao tamanho das ondas na boia, que muitas vezes seria equivalente à metade do tamanho real. Assim, quando um surfista havaiano fala que o mar está com ondas de 3 pés (ou mais ou menos “1 m”), esperamos encontrar ondas com mais ou menos 6 pés de face (ou aproximadamente “2 m”).

Sendo o Havaí a meca do surfe contemporâneo, essa “cultura” teria rapidamente se espalhado pelo mundo, assumindo pequenas variações em diferentes locais. O termo “pés havaianos” é uma medida adotada no mundo inteiro para superestimar o tamanho das ondas (entende-se que uma onda com “6 pés havaianos” é muito maior que uma onda com “6 pés” reais).

Como surgiu essa escala, é só uma teoria sem comprovação, mas, o fato é que a escala dos surfistas ao redor do mundo é bem diferente da escala científica (real), e isso gera uma grande confusão no entendimento das previsões de onda. No Brasil, por exemplo, o que observo é o uso de uma escala havaiana “atenuada”. Ou seja, enquanto o havaiano reduz à metade (50%) o tamanho real das ondas, o surfista brasileiro, em geral, reduz algo em torno de 40% o tamanho real das ondas. Por exemplo, uma onda com “2 metros” de altura de face seria chamada pelo surfista havaiano de uma onda de “1 metro” de altura, enquanto que para o surfista brasileiro seria uma onda de “1 metrão” (±1,2 m). A verdade é que os surfistas medem as ondas de forma diferente, dependendo das suas influencias, da ocasião e também da intensidade/força da onda.

Qual Escala Usar?

Não podemos querer dissecar as diferentes variações da escala surfística (havaiana) ao redor do planeta, senão iremos enlouquecer e criar ainda mais confusão, pois teríamos o “6 pés havaianos”, o “6 pés brasileiro”, o “6 pés australianos”, e por aí vai. O objetivo aqui é o contrário: Queremos convergir para uma mesma linguagem universal. E para isso não temos muito para onde correr: A única escala para medição de ondas que pode ser entendida em qualquer lugar do mundo é a escala científica (real), onde a altura da onda é medida pela face da onda arrebentando e a sua medida é dada pelo metro Sistema Internacional de Unidades (SI). Inclusive, vale ressaltar que é dessa forma que os modelos de ondas informam as alturas de onda que você lê nos mapas e gráficos.

Quando você lê no Lineup, ou no Windguru, por exemplo, que o swell terá 1 metro de altura, isso significa 1 metro na escala científica (real), e não na escala surfística (havaiana), onde “1 metro” tem 2 metros de altura, ou um pouco menos que isso. “Ah, mas, eu li no Windguru que teriam ondas de 1 metro e de fato rolaram ondas de 1 metro na escala surfística (ou seja, para um brasileiro, com aproximadamente 1,70 m de face)”. Como isso é possível? Por outro motivo. Como falamos antes, dependendo do período da ondulação, e da amplificação da onda provocada pelo fundo do mar, uma onda com 1 metro ao largo¹ pode facilmente quebrar com 1,70 m de face na arrebentação².

Nota 1: A altura da onda que você lê na maioria dos sites de previsão é para um ponto ao largo da arrebentação. Não é a altura da onda no ponto de arrebentação. Para calcular a altura da onda na arrebentação é preciso fazer a transformação da onda de águas profundas, ou intermediárias, para águas rasas. Alguns sites fazem isso, nem sempre de forma precisa. Mas, isso é assunto para outro artigo.

Nota 2: Usando uma fórmula simplificada (Teoria Linear) para cálculo da altura da onda na arrebentação a partir dos parâmetros da onda em águas profundas, considerando uma onda entrando paralela aos contornos batimétricos do fundo do mar (sem refração e difração), temos:

Onde:

  • Hb: Altura da onda na arrebentação;
  • H0: Altura da onda em águas profundas;
  • L0: Comprimento da onda em águas profundas (função apenas do período).

Entrando com H0 igual a 1 metro e calculando L0 para um período igual a 13 segundos, obtemos Hb igual a 1,70 m (o que para um surfista havaiano seria uma onda de aproximadamente “0,85 m”, enquanto que para um surfista brasileiro seria uma onda de aproximadamente “1 metro”).

Ou seja, você leu no modelo que teriam ondas de 1,0 metro. Só que na verdade o modelo está te dizendo que é 1,0 metro na escala científica (real), e em um ponto ao largo da arrebentação. Acontece que essa onda ao se propagar até a zona de arrebentação é amplificada e atinge 1,7 m de altura. E para você, uma onda com 1,7 m de altura de face é uma onda de “1 metro” (escala surfística). No fim das contas, a previsão “deu certo”, mesmo você e o modelo não falando a mesma língua! Assim, nesse caso, você “acertou” a previsão, mas, não sabe bem porquê... rs. E o problema de acertar por acaso é que você também irá errar muitas vezes, e nunca saberá o motivo de estar errando as suas previsões. Por isso, o mais importante, é deixar claro na previsão qual escala está sendo utilizada, e, se possível, mostrar a relação entre as outras escalas.

Concluindo...

A grande maioria dos surfistas não fala a mesma língua dos modelos de previsão de ondas, e isso gera interpretações equivocadas das previsões. Há dois motivos principais para isso acontecer:

  1. Diferentes escalas de altura de onda. Em geral, surfistas e modelos de previsão de onda usam escalas diferentes. Para o surfista, que usa a escala havaiana (ou uma aproximação desta), uma onda com “1 metro” de altura tem, na escala real (científica), quase “2 metros” de altura (ou um pouco menos disso para o surfista brasileiro).
  2. Desconhecimento sobre o ponto de previsão de ondas. Os modelos de onda normalmente fornecem a previsão em um ponto ao largo da arrebentação, e não no ponto de arrebentação, aonde o surfista quer a informação. É importante saber que na propagação deste ponto ao largo até o ponto de arrebentação a onda sofre transformações importantes, que podem afetar significativamente a sua altura.

Como demonstrado, somando esses dois erros, eventualmente acontece um acerto (rs). Mas, as chances de dar erro são maiores. Para corrigirmos isso, antes de mais nada, temos de falar todos a mesma língua, ou ao menos deixarmos explícito qual escala estamos usando e em qual ponto estamos fornecendo a informação. E a única escala universal é a escala científica, que precisamos inserir na cultura do surfista.

Participe da nossa pesquisa sobre a altura das ondas!

Gostaríamos de saber sua opinião sobre como você percebe a altura das ondas. Você usa a escala científica, a escala tradicional havaiana, ou prefere medi-la em função da altura do corpo? Ajude-nos a entender melhor as preferências da comunidade completando nossa pesquisa aqui. Sua participação é muito valiosa!