Compartir

A Lei de Rompientes e os desafios de Pellines e Pelluhue

Bruno Aguilar
Lectura: 5 minutos

Nos últimos meses, várias caletas do centro-sul do Chile têm estado no centro da atenção pública devido a projetos de construção de espigões e quebra-mares que poderiam alterar ondas reconhecidas por surfistas nacionais e internacionais.


Obra de espigão em Pellines em andamento. Foto: Ramón Navarro.

Casos como os de Pellines, onde já foi iniciado um projeto de construção, e Pelluhue, onde a obra ainda se encontra em avaliação, têm gerado preocupação na comunidade pelo impacto que essas intervenções poderiam ter sobre a forma e a força das ondas e, por extensão, sobre a economia e o turismo local.

Esses conflitos evidenciam a relação estreita entre a pesca artesanal e o surfe. Uma convivência que requer diálogo, planejamento e cooperação.

Nesse cenário, a Lei de Rompientes, que busca proteger legalmente as ondas aptas para esportes aquáticos, voltou a ser notícia ao avançar em sua tramitação no Congresso.

A norma propõe um marco legal que permita harmonizar a conservação das rompientes com a atividade pesqueira e turística, fomentando o diálogo entre surfistas, pescadores e autoridades.


A onda da Caleta Los Botes, ameaçada por projeto de espigão. Foto: Dobleuve fotos.

A Lei de Rompientes: proteger as ondas chilenas

No Chile existem mais de 100 ondas aptas para a prática esportiva, das quais mais de 20 são de classe mundial.

Muitas dessas rompientes enfrentam ameaças que vão além da construção de espigões, como a ocupação de terrenos, a escassa organização territorial, o desenvolvimento imobiliário ou de infraestrutura, o turismo não regulado, os acessos restritos e a má qualidade ou contaminação das águas.

O Projeto de Lei de Rompientes busca proteger essas ondas de intervenções humanas que poderiam provocar sua deterioração, garantindo que surfistas, pescadores e comunidades locais possam conviver de maneira sustentável.

O projeto tem sido impulsionado por organizações como a Fundación Rompientes, associações locais de surfe e diversas ONGs ambientais, além de contar com apoio parlamentar de senadores e deputados comprometidos com a proteção das costas.

Em setembro de 2025, a lei voltou a estar na agenda pública ao superar votações-chave no Congresso, avançando em sua tramitação. Atualmente, o projeto se encontra em seu terceiro trâmite constitucional no Senado, onde estão sendo revisadas as modificações realizadas pela Câmara de Deputadas e Deputados.

Essa etapa coincidiu com conflitos recentes em caletas como Pellines e Pelluhue, onde a comunidade alertou sobre projetos que poderiam afetar ondas de alto valor.


O Chile é lar de numerosas ondas de classe mundial.


Você pode se interessar:
O Tsunami que atravessou o Pacífico e seu impacto no Chile
Cinco spots imperdíveis para praticar windsurf no Chile


Pellines: ondas de classe mundial em risco

Na Caleta Pellines, região do Maule, começou a construção de um espigão de 75 metros e um contramolhe de 25 metros para proteger a pesca artesanal, com um investimento estatal de cerca de USD 4,5 milhões.

A obra busca oferecer segurança aos pescadores e estender a temporada de trabalho, mas já gera preocupação por seus efeitos sobre a famosa onda de Pellines, considerada de classe mundial.

O reconhecido surfista Ramón Navarro expressou sua preocupação ao The Inertia, destacando que as obras poderiam alterar o takeoff, mover a areia e modificar a forma da rompiente, comprometendo a qualidade da onda para sempre.

Navarro afirmou que a comunidade surfista foi excluída do processo de decisão e que, embora a Lei de Rompientes avance no Congresso, o projeto começou antes que existissem proteções legais efetivas.

“A onda que conhecemos agora provavelmente se perca”, afirmou Navarro na entrevista ao The Inertia.


Pellines em risco. Foto: Ramón Navarro.

Aprendendo com o passado e apostando no diálogo em Pelluhue

Em Pelluhue, os surfistas ainda lembram com frustração o que ocorreu com a onda de La Gotera.

Após a reconstrução pós-terremoto e a ampliação da esplanada da caleta em 2013, a formação da onda de La Gotera — considerada por especialistas como um dos tubos mais longos da América do Sul — foi irreversivelmente afetada.

Atualmente, a zona encontra-se praticamente sem uso, com uma caleta com dificuldades para funcionar plenamente e uma onda de classe mundial perdida.


La Gotera era considerada uma das ondas mais complexas e extremas do Chile.

Por outro lado, na Caleta de Los Botes discute-se um projeto de construção de um espigão destinado a reativar a pesca, uma demanda histórica da comunidade local.

Essa obra também poderia afetar a rompiente, valorizada por surfistas por sua altíssima qualidade. Em um gesto de unidade, moradores, pescadores e surfistas têm optado pelo diálogo e pela busca de soluções conjuntas, demonstrando que é possível conciliar os interesses de ambas as comunidades e proteger tanto a atividade pesqueira quanto as ondas de importância.

Esse contraste evidencia a relevância de planejar cuidadosamente as intervenções costeiras e a oportunidade que representa a Lei de Rompientes para proteger esses ecossistemas compartilhados.


A onda da Caleta de Los Botes em perigo. Foto: @jvidalso.

Em resumo

Esses casos em Pellines e Pelluhue mostram a complexidade de conciliar o desenvolvimento de infraestrutura costeira com a preservação de ondas de qualidade mundial e a atividade pesqueira artesanal.

Enquanto em Pellines a construção de um espigão avança apesar da preocupação de surfistas pela rompiente, em Pelluhue optou-se pelo diálogo entre moradores, pescadores e surfistas para evitar repetir os erros do passado, como a perda da onda de “La Gotera”.

Nesse contexto, a Lei de Rompientes ganha relevância como um instrumento para proteger os ecossistemas marinhos e recreativos, promovendo a participação das comunidades locais e fomentando um equilíbrio entre pesca, turismo, surfe e desenvolvimento costeiro, de modo que os projetos sejam planejados com visão integral e respeitando os valores naturais e culturais de cada lugar.