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A esquerda de Zanja Honda

Fabio Cicchini
Lectura: 6 minutos

Em abril de 2024, Rocha foi declarado por lei como "Departamento Capital do Surfe Uruguaio", como forma de fomentar campeonatos nacionais e internacionais e, ao mesmo tempo, impulsionar o turismo na costa atlântica. Hoje vamos falar sobre a esquerda de Zanja Honda, uma das ondas mais emblemáticas do Uruguai, localizada em Rocha, no balneário de La Paloma.


Zanja Honda pelas lentes de Olas del Uruguay.

La Paloma e sua geografia única

La Paloma conta com um cabo rochoso chamado Cabo Santa María, que oferece de um lado uma costa voltada para o sul com picos como La Balconada, Los Botes, Zanja Honda e o Corumbá, e do outro lado uma costa voltada para o leste que começa junto ao porto com a primeira praia chamada La Aguada. La Paloma é, sem dúvida, um dos melhores lugares para surfar, já que recebe swell de todas as direções e possui duas costas opostas. Quase sempre é possível encontrar uma praia com vento favorável que gere ondas com boa formação.

Uma esquerda exigente e consistente

A esquerda de Zanja Honda, em La Paloma, é uma das melhores esquerdas do Uruguai pela sua qualidade e perfeição, assim como pelo seu percurso, que, para os padrões uruguaios, é uma onda longa.

Está localizada na costa voltada para o sul, com swell ideal vindo do sul ou sudeste, e o vento "offshore" deve vir do setor norte (NW-N e NE), sendo que um vento oeste leve ou moderado também funciona bem ao atingir de lado a boca da onda.


Fabio Cicchini não apenas prevê ondas... ele também surfa nelas em Zanja Honda. Foto: Lorena Vázquez.

O reef e suas características

Rompe sobre um reef de pedras, um dos poucos ou talvez o único que temos sobre a praia. O Uruguai conta com alguns como o Himalaya, localizado em frente a La Balconada, ou o "Falkland" em La Aguada, mas estes estão localizados mais ao largo e poderiam ser classificados como "outer reefs".

O reef de Zanja Honda é uma ponta de pedras submersa, um conglomerado de rochas que se estende desde a praia em direção ao mar. Começa com pedras expostas que vão desaparecendo à medida que a profundidade aumenta, formando uma plataforma rochosa submersa com cerca de 200 metros de largura. Em uma das extremidades quebra a esquerda e, na outra, uma direita mais curta e menos constante.

Todas essas características a tornam única e muito diferente dos clássicos picos de pedra do Uruguai, como seus vizinhos La Esquerda de Los Botes e La Balconada ou La Moza em Santa Teresa. Outro aspecto que a torna especial é a "pedra" grande e robusta que sai para fora da água bem em frente à onda onde ela começa a quebrar.

Maré e acesso ao lineup

Quanto à maré, ou seja, o nível da água sobre o reef, a onda quebra bem em todas as marés, mantendo a esquerda com boa forma e abrindo perfeitamente. Com maré alta, é mais segura, pois a profundidade aumenta, reduzindo o risco de tocar o fundo em uma queda. Quando a água baixa muito, todas as pedras ficam expostas da praia até a “Pedra” em frente ao pico, podendo se tornar mais perigoso e tendendo a quebrar um pouco mais no fundo.

Para chegar ao lineup é preciso remar cerca de 150 metros. O ideal é entrar pelo lado do Corumbá, próximo às pedras submersas onde se forma um canal; mesmo com swell grande, não chegam espumas e é possível entrar com facilidade. Depois é necessário nadar, contornar e se afastar da zona de arrebentação para não encarar as grandes espumas nem os surfistas que estão vindo na onda.

Percurso e seções da onda

Em condições clássicas com mais de 1 metro, é uma esquerda longa com um percurso de cerca de 150 metros. Em geral, as melhores ondas são pegas em frente à "pedra" ou, pior ainda, passando para o outro lado, fazendo com que parte do percurso seja bem próximo dela, aumentando a adrenalina.

A onda começa com fundo de pedra com uma entrada acessível; a primeira seção é bastante íngreme, seguida por uma seção em frente à pedra, bem mais oca, que com a maré ideal às vezes forma um tubo curto e potente. Dependendo da maré e do swell, a “pedra” pode estar a mais de 15 metros ou a apenas 3 metros — nesse caso, o drop se torna mais arriscado.

Depois vem uma seção longa, mais lenta, com uma parede excelente e super manobrável para várias manobras, já com fundo de areia ao nos afastarmos do reef.

Para quem não quer grandes desafios, costumam sair algumas esquerdas mais abertas, evitando os riscos.

Uma onda que segura tamanho

Outra grande qualidade é que aguenta mares grandes, com swell acima de 1,5 metro e boa energia (período acima de 11 segundos). Nestas condições, as ondas chegam como paredes largas, e em geral os picos de fundo de areia (beach breaks) ficam passados, como é o caso do vizinho “El Corumbá”. Quebram seções inteiras e largas, que não abrem, e se tornam praticamente insurfáveis. É aí que o excelente formato do reef de Zanja Honda brilha, gerando esquerdas longas e perfeitas com excelente qualidade.

A maior onda de Willy Barreiro

É lembrada uma reportagem televisiva feita há anos com Willy Barreiro (surfista e shaper local) no querido programa “Mundo Náutico” (transmitido pelo Canal 5, produzido por Pupi Berger e Marcelo Matos), onde lhe perguntaram qual foi a maior onda que já havia surfado no Uruguai. A resposta foi rápida: “A esquerda de Zanja Honda”. Ele contou que naquele dia estavam os donos da Bic, a famosa marca de canetas e isqueiros, e não acreditavam no potencial da onda. Segundo eles, havia 10 pés sólidos — mais de 3 metros! Hoje, a Bic tem sua própria linha de pranchas de surfe graças à influência de seus fundadores.


Gerónimo Ribeiro esquivando-se da pedra de Zanja Honda.

Com todas essas informações, se você ver no forecast que está chegando um swell do sul, não hesite em conferir Zanja Honda na câmera exclusiva da Lineup.