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“A atitude do animal é de caça”: a cena registrada pela câmera em Bikini

Bruno Aguilar
Lectura: 4 minutos

Um vídeo gravado por nossa câmera no pico Bikini, em Manantiales, no departamento de Maldonado, Uruguai, chamou a atenção da comunidade surfista dentro e fora do país.


Surgindo na superfície o que parece ser a barbatana do animal.

Na superfície, surge o que parece ser a barbatana de um animal.

Nas imagens, registradas em 16 de agosto, é possível observar uma figura que se move muito perto dos surfistas, com o que parece ser uma barbatana saindo da água.

O vídeo foi publicado pelo portal Duke e viralizou rapidamente. Diversas teorias surgiram: alguns pensaram que era um tubarão, outros acreditaram que fosse uma orca ou um golfinho.

Para entender melhor o que poderia ter acontecido, conversamos com Andrés Milessi, biólogo marinho e diretor da organização Mar Azul Uruguaio, e com Damián, um dos surfistas que estava na água naquele dia.

“Foi tudo muito rápido”

Damián conta que estavam curtindo uma sessão tranquila quando notaram algo incomum na água:

“A gente viu. Vi um dorso bem grande. Foi tudo muito rápido. No vídeo dá pra ver uma barbatana. Não sou especialista nem nada, mas pela forma como se movia achei que podia ser um tubarão. Depois que passou, continuamos na água, tranquilos.”

“A atitude do animal é de caça”

Ao analisar as imagens, o biólogo Andrés Milessi afirma que o comportamento observado parece corresponder a uma atividade de alimentação:

“A atitude do animal é de caça. É um animal de grande porte que está perseguindo algo, provavelmente uma presa. Nesse caso, não afetaria os surfistas; eles nem entram no seu radar.”

Segundo Milessi, pela forma e pelo movimento da barbatana, o mais provável é que se trate de um tubarão — embora não se possa descartar completamente a presença de um mamífero marinho.

“Pelas barbatanas e pelo formato, o que mais se assemelha é um tubarão. Se fosse um mamífero marinho, como uma orca ou um golfinho, teria que vir à tona para respirar e soltar um jato de ar, e isso não aparece no vídeo.”

O especialista também ressalta o valor de registros como esse:

“É bom que filmem essas coisas, que fiquem registradas e sejam divulgadas.”

Tubarões no Uruguai: uma biodiversidade pouco conhecida

Milessi lembra que no Uruguai existem pelo menos 50 espécies de tubarões, de diferentes tamanhos e comportamentos:

“No Uruguai temos quase 50 espécies de tubarão. Inclusive há registros de tubarão-branco. Não é provável que esse animal seja um deles, mas é bom saber que também existem em nossas águas.”

Quanto às espécies que mais se aproximam da costa e correspondem às dimensões vistas no vídeo — cerca de dois ou três metros —, ele menciona o cação, o tubarão-azul e o tubarão-brasileiro, entre outros.

“O vídeo foi gravado em 16 de agosto. Nessa época do ano costumam aparecer mais os cações ou tromba-de-cristal. O gato-pardo ou o cação-pintado aparecem em setembro ou outubro. Pela data, poderia ser um cação grande, mas é só uma hipótese.”

O especialista também descarta algumas possibilidades:

“Não seria uma sarda, que aparece mais no verão. E, se fosse uma orca, veríamos o jato de ar. O que chama atenção é o animal estar tão perto da costa e tão superficial.”

O que fazer se você vir um tubarão na água

Longe de causar alarde, Milessi reforça a importância de manter a calma e evitar interações diretas com a fauna marinha:

“Se você vir um tubarão, um golfinho ou qualquer animal silvestre, o melhor é manter distância. Eles estão em atitude de alimentação ou reprodução. O ideal é se afastar e esperar a situação passar.”

Ele também esclarece que os tubarões que se aproximam da costa uruguaia não representam perigo para os surfistas:

“As espécies que temos não vão te atacar nem te comer. Se alguém invade o espaço deles, o animal pode reagir por defesa, como qualquer ser vivo. São animais selvagens.”

“Nunca vou aconselhar você a colocar a mão na boca de um tubarão e dizer que ele não vai morder. Se fizer isso, por reflexo o animal vai fechar a boca. Não porque quer te machucar, mas porque é um ato de defesa.”

Um mar com vida

O Uruguai tem uma grande riqueza marinha, embora muitas vezes desconhecida pela maioria.

“Temos uma grande biodiversidade de tubarões”, ressalta Milessi. “E muita gente não sabe. Por isso é importante que essas observações sejam divulgadas, pois ajudam a gerar consciência sobre a vida marinha que nos cerca.”

A organização Mar Azul Uruguaio, dirigida por Milessi, trabalha há anos para proteger a biodiversidade marinha do país e promover uma cultura oceânica baseada no conhecimento científico e local. Sua atuação se concentra em três eixos principais: a criação de Áreas Marinhas Protegidas, a educação ambiental e a proteção de tubarões e arraias.